Diário

Nigéria em Fast-Track (07 a 19 de julho de 2008)

por Fábio Olmos (f-olmos@uol.com.br)

Chegando lá…

06/jul/2008 – Embarquei com a comparsa Christine Steiner no vôo 455 da Air France com destino a Paris, com conexão quase imediata para Lagos. Partida às 16:30. Foi um vôo com boa dose de turbulência, mas um bom vinho La Baume (Pays d’Oc) acompanhando a comida apenas regular.

07/jul/2008 – Chegamos ao aeroporto Charles De Gaule às 08:15. Logo após aterrar o primeiro bicho francês que vimos foi um coelho, seguido por outros que pululam nas áreas de vegetação baixa junto à pista. Também um grupo de Sturnus vulgaris e dois Corvus corone. Tempo encoberto, 16°C. Desembarcamos e rumamos para o terminal de nossa conexão sem fazer imigração. Às 10:30 zarpamos rumo a Lagos. Boa parte da viagem, entre Paris e o norte da África foi sobre nuvens, mas após ultrapassar o Anti Atlas argelino o Sahara se revelou sob nós. Uma extensão de aridez marciana marcada por muitos leitos de rios e riachos secos, alguns com acácias marcando seu trajeto. Um wadi especialmente grande tinha uma vila com plantações (tamareiras ?) formando quadrados. Chegamos em Lagos às 16:15, com algum atraso. Babatunde, motorista de nosso host, Phil Hall, da Leventis Conservation Foundation, nos esperava.

A primeira ave vista do avião foi um Anthus (possivelmente A. leucophrys) junto da pista, seguido por alguns Spermestes (cucullata ou fringilloides), Corvus albus e Milvus parasitus. No caminho para nossa hospedagem, em Ikoyi, Ploceus cucullatus nos capinzais em volta do aeroporto, Bubucus ibis em vários pontos da cidade, um Phalacrocorax africanus e duas Chlidonias niger em plumagem de inverno vistos da Third Mainland Bridge (a Rio-Niterói deles), Streptopelia senegalensis e 2 Turdus pelios empoleirados nos fios na área mais arborizada de Ikoyi. Chuva no caminho e o trânsito caótico de sempre. Recepcionados por Phil, jantamos uma excelente combinação de lentilhas, camarão e spiced chicken com um bom vinho tinto sul-africano Nederburg, o preferido por lá.

De Lagos para Ibadan

08/jul/2008 – Amanheceu chovendo e ficou brocolhão todo o dia. Saímos (os quatro) às 10:00, depois do café da manhã e fomos resolver minha inscrição no PAOC. O objetivo era ir à sede da Leventis para resolver a questão de meu visto de trânsito para o retorno de São Tomé, e as passagens para lá. No caminho passamos pelo famoso outdoor de uma empresa de banheiros portáteis proclamando “shit business is important business”. Deve ser um dos pontos mais fotografados da cidade.

Graças ao tráfego medonho, que nos fez levar 2 horas para vencer 2 km, perdemos toda a manhã e boa parte da tarde e só foi possível observar as aves do interior do carro, como algumas dezenas de Chlidonias niger na Lagos Lagoon e pares ou trios de Crinifer piscator. Chegamos à Leventis quase às 13:00, e depois de ir à Air Contractors comprar nossas passagens conseguimos partir de Lagos às 15:00 rumo ao IITA em Ibadan, onde chegamos às 16:50. A estrada cruza o que já foi, até há poucas décadas, floresta pantanosa (perto de Lagos) e de terra firme, hoje reduzida a capoeiras com muitos dendezeiros. Vi um caminhão com toras, e gado tipo ankole, com chifres enormes. E passamos a City of God, com galpões enormes onde c. 1 milhão de pessoas se reúne a cada último sábado do mês para show-cultos evangélicos e causam congestionamentos monstruosos na rodovia.

Ibadan, com 8 milhões de habitantes, já foi a maior cidade da Black Africa e capital do império Yoruba. Sua riqueza, até recentemente, estava baseada no cacau, principal produto do SW do país. Da estrada Ibadan parece uma grande vila, com edifícios e casas de 2-3 andares e telhados de metal sheets enferrujados a perder de vista. A quantidade de lixo ao longo da estrada impressiona. Voando sobre o lugar ou pousados nos fios Falco (tinnunculus) rufescens (bem menor que a forma européia), Corvinella corvina, Halcyon leucocephala e pencas de Streptopelia senegalensis.

O IITA é um instituto voltado à pesquisa agrícola, com um trabalho importante na seleção de variedades de inhames, bananas e mandioca. Lembra bastante a ESALQ, mas tem alojamentos e restaurante (com piscina) que funcionam como em um hotel. Phil diz que é a Independent Republic of IITA por ser muito diferente do resto do país. Há um trecho de floresta, bem encapoeirada e com muitos dendezeiros, que é a única localidade recente de Malimbus ibadanensis, visto ali 3 meses atrás e que me deu o cano na vez passada. Um reservatório com muitas macrófitas e taboais atrai muitas aves aquáticas, o mesmo valendo para alguns pequenos arrozais. O primeiro bicho foi um Jeffrey’s Ground Squirrel cruzando a rua.

Contornamos o reservatório até a floresta já no fim da tarde e esperamos anoitecer para tentar alguns curiangos. Nicas. Voltamos com spotlight procurando corujas, mas só conseguimos alguns Nycticorax nycticorax e Burhinus senegalensis, além de revoadas de cupins enormes e muitos sapos com dorso bem moteado. Jantamos às 20:00 e pouco (experimentei chicken korma, um strogonoff picante que parecia usar leite de coco), tomei minhas primeiras Malta Guiness (só achei isso na Nigéria), e Christine gostou, para desconsolo de Phil) e fomos dormir.

De Ibadan para Okomu

09/jul/2008 – Acordamos cedo e às 06:15 (amanhecendo) partimos em direção ao reservatório para tentar alguns crakes e o Painted Snipe que costumam aparecer. Como de praxe naquelas bandas o coro matinal de Turdus pelios, Pycnonotus barbatus e Halcyon senegalensis. Ao longo da margem do lago a única novidade foi Ardea cinerea e um Porphyrio alleni capturando uma pequena tilápia. Voltamos ao restaurante para o café da manhã (o meu completo, incluindo os beans que aprecio), que foi o que nos segurou o resto do dia. Às 07:45 estávamos de volta a caminho da reserva de capoeira-floresta do IITA, onde algumas trilhas permitem a visitação. O lugar consta estar protegido há 40 anos, mas a regeneração é pequena graças à cipozeira. Cinco anos de manejo de lianas resolveria o problema. Ouvimos dois tiros, o que mostra que a proteção também deixa a desejar. No caminho vimos um par de Falco ardosiaceus pousado em um dos postes – mesmo ponto onde vi a espécie em 2007 – e um Falco tinnunculus em uma placa. Em um mandiocal vimos muitos Ploceus cucullatus – bicho grande que parece bem próximo de P. grandis de São Tomé – e um Chrysococcyx klaas. Nas áreas abertas ao redor um Macronyx croceus e muitas Streptopelia semitorquata.

Na mata fomos recepcionados pela canção “telégrafo ensandecido” de um Pogoniulus bilineatus, e logo depois pela variação sobre o mesmo tema de um Buccanodon duchaillui e o trinado de um Sylvietta virens. Juntando-se aos repetidores compulsivos de notas únicas logo depois enontramos a primeira de várias Camaroptera chloronota. Devido ao tempo curto (Phil tinha uma reunião às 10 e pouco) caminhamos pouco mas a trilha rendeu, além de alguns bichos de floresta mais comuns, um bando misto de Ploceus tricolor, Malimbus scutatus e Dicrurus adsimilis, uma família de Machaeirampus alcinus voando sobre nossas cabeças por um bom tempo, um Tropicranus albocristatus e um Tauraco persa atraídos por play-back. Satisfeitos, voltamos, parando para ver uma família de Malimbus nitens junto ao lago.

Phil foi para sua reunião e eu e Christine fomos procurar os Malimbus ibadanensis no spot junto ao campo de golfe (sim, o lugar parece um clube). Vimos muitos ground squirrels, Halcyon senegalensis, dezenas de Onychognathus hartlaubii e Lamprotornis splendidus, e outros bichos variados comendo frutos na borda da mata, mas nada dos malimbes. Terei que voltar outro dia

Nos encontramos às 11:30 para embarcar as coisas no carro e um rápido lanche antes de cair na estrada. A internet estava caída e tive que ligar para casa para resolver os detalhes da compra da passagem para o PAOC e outros pepinos.

Na estrada, que sai de Ibadan rumo sul até encontrar a Lagos-Benin City um pouco a oeste da entrada para Omo, de notável um trio (2 adultos e um juvenil) de Necrosyrtes monachus comendo um despacho colocado junto a um cemitério (viva as religiões que alimentam aves ameaçadas) e uma colônia mista de Ploceus cucullatus e P. nigerrimus, como as que vi na vila em Omo no ano passado. O trajeto cruza uma estação de pesquisas sobre cacau e muitas plantações de gmelina e teca. Paramos e comprei umas dodo (plantain) chips apimentadas, muito boas.

No caminho anotei os nomes de algumas das igrejas e similares que pululam no país:

Cherubim and Seraphim Movement Church

Preach the Word Evangelical Church International

Foursquare Gospel Church (lembrei do 88Square)

Celestial Church of Covenant

Christ Authority Bible Church World Wide Ministries

New Anointed Prayer Ministry (INC)

God Healing Power House

Christ the Good Sheepherd Catholic Church

Mountain of Fire and Miracles Ministry

Church Saint James The Great

Satgoru Maharajn Village – The Kingdon of Heaven on Earth – The Living Christ and Mahdi of Our Century (com uma foto do próprio em um outdoor).

Isso dá idéia do espírito do pessoal. E também havia o Private Eternity Cemetery. Não é por falta de religião que o país não dará certo.

Continuamos pela Lagos-Benin, em condição desastrosa e tão caótica que havia veículos transitando em ambas as mãos nas duas pistas, cada uma com teóricas duas bandas de rodagem. Ao longo da buracovia 5 caminhões capotados ou tombados, um após macetar uma van. Não sei como conseguem a proeza, pois é impossível correr.

Nas favelinhas de camelôs ao longo da estrada muitos Grasscutters grelhados na brasa, abertos como um cordeiro no fogo de chão, e em um ponto bushmeat à passarinho, com um duiker e um bushbuck frescos esperando serem picados. Isso pouco depois da entrada para a Omo Forest Reserve. Também fieiras de Achatina à venda. A estrada só melhora quando cruzamos a fronteira entre Ogun e Edo states, mas na intersecção para Okomu a coisa piora e depois caímos na lama até chegar ao lodge, onde chegamos às 17:47, a tempo de ouvir os Corytheola, Psittacus e Ceratogymna gritando. No caminho apanhamos Alfred “18 filhos”, que será nosso mateiro.

Fechamos o dia com um bom frango com legumes e molho apimentado, a história de como Denis “Last Cobol” conseguiu seu nome (1 naira tem 100 cobols..) e os gritos dos tree hyraxes (Dendrohyrax) durante a noite.

10/jul/ 2008 – Okomu foi uma área de extração de madeira desde a década de 1920 até a década de 1990, embora o parque nacional (112 km2) tenha sido criado em 1988. É a última extensão significativa de floresta nativa razoavelmente conservada no SW da Nigéria e abriga elefantes e búfalos de floresta, 3 espécies de Cercopithecus, 1 Cercocebus e, diz a lenda, chimpanzés. Está se recuperando das injúrias passadas e tem trechos com muitas árvores de padrão floresta equatorial africana, com a copa acima de 50 m. Há cerca de 20 lagos no interior da floresta que estão entupidos de vegetação, análogos aos bai da África Central. Búfalos & cia pastam nestes, que são circundados por sumaúmas (as mesmas da Amazônia) que suportam três plataformas de observação (em lados diferentes) a mais de 40 m de altura. O entorno de parque é de logging concessions e plantações de teca e gmelina, além de vilas e suas roças de mandioca.

O parque tem um staff de 70, incluindo patrulhas anti-caça que parecem estar controlando o problema. Os vi partindo para acampar em um ponto distante da sede. E também havia 18 graduandos de universidades cumprindo os 6 meses de industrial attachment (estágio obrigatório) necessário para conseguir o grau. O pessoal estava alojado no edifício ao lado do lodge, por sinal bastante confortável, embora com eletricidade apenas depois de escurecer.

O lodge (06°18’04.6’’N, 05°21’34.5’’E) é mais uma empreitada da A. P. Leventis Foundation. É um complexo sobre estacas, o que isola da umidade do chão, com quatro chalés octogonais (dois quartos em cada) ao redor do restaurante-salão de estar. Há uma piscina, mas estava vazia. O downside é a falta de eletricidade durante o dia, os geradores só funcionando à noite, mas com força suficiente para alimentar o ar-condicionado.

Acordei às 05:00 e enrolei um pouco. Tomamos chá e saímos às 06:15, com o céu clareando, rumo à plataforma sobre uma enorme Ceiba às margens do “lago” (Lake 52), que na realidade é um grande brejo tomado por vegetação herbácea e com pouca água exposta. Tivemos alguns momentos de sol mas o tempo logo ficou encoberto, mas do alto da plataforma, a uns 50 m de altura, tínhamos uma visão desimpedida da copa e do brejão abaixo.

O jogo durante a manhã foi esperar os bichos apareceram e o primeiro registro notável foi um bando misto de Tockus fasciatus (uns 5) e Bycanistes fistulator (talvez 7-8), infelizmente distantes demais para fotos. Também uns 4 Neafrapus cassini (com silhueta de Chaetura brachyura) e um Halcyon malimbica em vôo de exibição. Depois de cantar por um tempo de um galho exposto no alto de uma árvore, a ave alça vôo e fica vários minutos circulando, bem acima das copas, cantando, antes de mergulhar de volta a um poleiro. Do alto também observamos vários Treron, alguns pousados bem perto, um Nigritta canicapillus, um trio de Fraseria ocreata e atraímos um par de Thesceocichla leucopleura com o play-back de sua voz bizarra (até para um greenbul). Mas o highlight foi um par e depois um trio de Pteronetta hartlaubii que voavam pela área e pousavam nas árvores.

Descendo encontramos um Andropadus latirostris com barbelas amarelas didáticas e muitos frutos de minha velha amiga Elephant Okra, identificada como Desplatzia supericarpa pelo especialista botânico do parque, Mathias.

É uma das megafrutas dispersas por elefantes. E também achamos os frutos de Myrianthus arboreus, algo tipo Musanga, mas hipertrofiado a ponto de parecer uma fruta-pão. Muitas destas roídas por macacos e esquilos que comeram as sementes.

Voltamos ao lodge observando 4 Maxwell’s Duikers no caminho, três (incluindo um par) no acesso ao lodge (localizado no A. P. Leventis Conservation Center – Arakhuan). Caminhando ali também vimos Raphidura sabini, um grupo de quatro Corythaeola na copa e vários Ceratogymna atrata, cujos gritos padrão buzina enchiam o ar. Mas, no geral, vimos poucos bichos, talvez pelo tempo encoberto mas também porquê no quesito abundância de bichos a África é como a Amazônia: você rala.

Após um brunch (mais baked beans e um Spanish omelet) combinamos de sair às 14:00. Com a bateria do computador zerada e sem eletricidade fui explorar os arredores e fotografei alguns Agama agama e vi um macho de Mangabey solitário atravessando a estrada de acesso ao lodge. A bunda rosa chama a atenção. Os Ceratogymna circulavam de um lado para o outro mas sem chance de fotos, mas encontrei um bando misto – o primeiro – com Andropadus virens, Criniger calurus, Little Green Sunbird, Olive-bellied Sunbird, Olive Sunbird e Green Hylia. Na esquina do lodge encontrei uma Nigrita bicolor, que logo se juntou a outra na tentativa de iniciar a construção de um ninho com uma folha morta da qual só restava o reticulado das nervuras.

Tempo ameaçando chover, com ocasionais clareadas. Fomos a outra plataforma, mas antes fomos filmados pelo cinegrafista de uma TV local. A equipe está fazendo uma matéria promovendo o parque. Caminhando para a plataforma pegamos chuva, sendo resgatados por Babatunde, que nos levou até a própria. Esta chega a mais de 40 m, também sobre uma Ceiba na beira de um lago (Lake 64) onde havia rastros de búfalos. De interessante vimos uma manada de 35 Tockus fasciatus, vários Bycanistes albotibialis, um Polyboroides e alguns Telecanthura melanopygia. Na volta demos com um macho de Ceratogymna elata pousado no eio da estrada, que voou para as árvores próximas e ficou ali, pousado baixo. Resolvemos caminhar da vilinha dos funcionários para o lodge e logo depois vimos um Mona (bem assustado) e um grupo de 12 adultos e 8 filhotões de  Guttera pucherani cruzando a estrada. E mais Ceratogymna atrata ao redor do lodge.

Jantamos espaguete bolognese acompanhado por um fácil vinho espanhol Castillo de Liria. O cinegrafista veio nos filmar, mas se recusou a filmar Babatunde jantando. Racismo é uma m…

De Okomu para Agenobode

11/jul/2008 – Tomamos nosso chá às 05:15 para chegar no spot da African Pitta a tempo. O bicho parece ser ativo apenas no lusco-fusco. O problema é que é um migrante intertropical e só aparece na seca, mas de qualquer jeito valia a tentativa. Que ficou nisso. Rumamos para a plataforma do Lake 64. Na subida uma perereca cinzenta nos degraus. Enquanto clareava acabamos no meio de uma neblina razoável que impediu a visão das copas.

No lago vários African Crakes, um Jesus Bird, um Butorides e um par de Pteronetta. Lá de cima ouvimos ou vimos um par de Ceratogymna atrata (fotos artísticas da silhueta) que foi expulso de seu poleiro por um par de Bycanistes subcilindricus. Também Oriolus brachyrhynchus, Halcyon malimbica, Green Hylia, Turtur tympa, Red-humped Tinkerbird Pogoniulus atroflavus e um par de Psittacus. Descemos mais cedo por conta da neblina e voltamos para o lodge, parando no caminho para fotografar um Accipter tachiro secando na beira da estrada principal.

Paramos para checar o que havia nos últimos 500 m antes do lodge e ouvimos Brown Illadopsis, que se recusou a vir no play-back, Shinning Drongo e um Dwarf Kingfisher Ceyx lecontei.

A figura que cuida do turismo no parque, Madam Confort (sim, é o nome dela) nos passou a conta, que inclui taxas pelo uso de binóculos e máquinas fotográficas (….). Deixamos o lodge passando por um logging truck com umas toras imensas vindo de uma das logging concessions que circundam o parque. Eles utilizam a estrada de terra que corta a reserva e a destroem no processo… A madeira vai para as serrarias na periferia de Benin City, que parece Marabá na década de 1980, incluindo a estrada de lama padrão amazônico e os barracos de tábuas irregulares vendendo de tudo que a margeiam. O centro da cidade, uma das mais antigas da África e capital de um dos reinos mais famosos, ainda abrigando o palácio do Oba of Benin, é outra coisa, mas não passei por lá. Aliás, descobri que quando um Oba assumia o trono sua mãe era ritualmente morta. Devem ter lido muito Shakesperare…

Antes de seguir para Ibadan passamos pela sede do parque para uma social com o diretor, Yakubu Kolo, que nos falou de um projeto de inventário de anfíbios e outro com peixes sendo conduzido pela University of Benin. A extração ilegal de madeira parece ter sido controlada com auxílio dos militares, já que os madeireiros aqui usam AKs-47. Dali seguimos para Benin para uma rápida visita à universidade, que me lembrou a federal de Alagoas no seu jeitão. Passamos pelo Department of Forestry and Wildlife (às escuras devido à falta crônica de eletricidade. Os professores Gideon Emelue e O. T. Aremu nos mostraram os projetos de criação de Cane Rats (ou Grass-cutters) e Giant Snails (Achatina spp.) que seriam alternativas para o pessoal do entorno de Okomu. Foi interessante o discurso de que o parque tirou oportunidades das pessoas e isso criou conflitos. Ninguém menciona que o real problema é que há gente demais no mundo e muita área detonada e abandonada. Por sinal, boa parte do país é isso.

Interessante foi ver no suposto templo do saber um número enorme de anúncios religiosos, cristãos e muçulmanos. E um bem legal: Aids is real: condomize ! Ah sim, mais algumas igrejas, estas em Benin:

Calvary Kingdon Church International Inc.

Church of the Solid Rock Inc.

God Is Able Prayer Ministry International Inc (Transformation Centre)

Jesus Battle Axe Prayer Warriors.

Da universidade seguimos rumo norte para Agenobode (passando por mais uns 3 caminhões tombados), onde chegamos às 16:50. Cochilei no caminho porquê estava quebrado, mas a paisagem era uma sucessão de capoeiras com dendezeiros. E vilas com muitas das cabras nanicas tão típicas daqui, que lembram um fox paulistinha gorducho.

Em Agenobode ficamos na Weppa Farm (07°02’04.8’’N, 06°33’19.1’’E), propriedade da Leventis Foundation. Weppa era uma Game Reserve (com elefantes e búfalos) durante o período colonial, mas após a independência eliminaram todos os bichos e, na década de 1980, o lugar foi passado para um grupo americano que desmatou a Guinea Savanna, que é a vegetação original, para plantar arroz. A coisa faliu graças à competição com o arroz importado e os Quelea e a fazenda hoje planta mandioca, milho e citrus. Dos 30 mil ha da fazenda, metade ainda tem vegetação nativa, os antigos rice paddies sendo capinzais de gramíneas e ciperáceas variadas delimitados por canais de irrigação margeados por árvores. Parte significativa da área é cedida aos habitanes da vila próxima para que plantem seu milho, arroz e mandioca, e pastoreiem seu gado.

Após nos instalar na casa de hóspedes, que os imbecis dos americanos construíram como um forno solar, saímos para passarinhar. Pencas de Crex egregia e Centropus grillii, migrantes que chegam com as chuvas. Também nuvens de Quelea erythops, Euplectes spp. e todos os papa-sementes. Nas árvores às margens dos canais de irrigação muitas colônias de Ploceus cucullatus e, em um dos canais, um pequeno crocodilo que pareceu bem escuro (fotos). No caminho encontramos Nick e Francis, os managers. Nick é um expatriado britânico que trabalhou nas Filipinas (4 anos) e Papua Nova Guiné (mais de 10), Francis é nigeriano e está tentando aprender as aves.

Após um jantar à luz de velas (como em toda a parte eletricidade é coisa rara aqui) fomos à vila (Agiere) para uma cerveja. Passamos na casa do chefe para um olá protocolar e ficamos bebericando Stars não muito geladas, com a vila às escuras. O sistema de distribuição da Nigéria foi detonado pelas indicações políticas e pela corrupção. Os funças esperam que você pague propina para ter sua luz de volta, e a cortam quando sabem que em algum lugar há um grande evento como um funeral, só para ganharem um troco para dar um jeito. Claro que o dinheiro da manutenção é desviado.

Para surpresa geral havia eletricidade quando chegamos à fazenda (2 Tyto no caminho) e deu para recarregar parte das baterias e dormir com ar-condicionado.

12/jul/2008 – Café da manhã às 06:00 e partimos – junto com Francis – para uma viagem de quase 1 hora dentro da fazenda até a beira do rio que marca sua divisa sul. O objetivo era observar as famosas Scotopelia bouvieri de Weppa. Na beira do rio, já fora da fazenda, há um aglomerado de talvez 10 barracos de palha e adobe, alguns com 1,5 m de altura e pouco maiores que uma cama king-size, que tomei por uma vila temporária de pescadores, mas descobri ser um povoado permanente (Osemereabe). O estado mais que precário das habitações (!!!???) me levou ao erro.

Nesta parte da Nigéria vi poucos lugares onde era evidente alguma preocupação com limpeza e estética, as casas bonitas sendo mais uma demonstração de status que outra coisa. Não vi nem mesmo algo que chegasse perto das casas de adobe com cobertura de palha até que ajeitadas que vi no Tocantins. O mindset, e não a pobreza, faz a diferença.

Com algum atraso saímos às 07:15 em uma canoa de um pau só pilotada por Daniel e outro local, além de um garoto para tirar a água que entrava por vários buracos. Uma real experiência africana. Descemos o rio procurando pelas corujas nas manchas de floresta inundada pelo rio, em trechos bem similar a uma várzea amazônica degradada, com copa a c. 10 m. Árvores bem maiores espalhadas mostravam que a floresta já teve outra cara. A semelhança entre os nigerianos do sul e os italianos meridionais se manifestou na incapacidade de nossos remadores manterem silêncio ou conversarem baixo. De qualquer maneira a excursão foi um sucesso e encontramos 2 pares e 1 trio de corujas em 3-4 km de rio que exploramos. Consegui até mesmo algumas fotos. O sucesso foi complementado pela observação de outras espécies típicas dessa “floresta de várzea”, como Pyrrhurus scandens, Cossypha niveicapilla, Apalis flavida e Anthreptes gabonicus. Também consegui fotos boas de Tockus fasciatus e Bycanistes fistulator, que faltavam.

Voltamos às 12:45, felizes pelo tempo ter ficado encoberto e não ter chovido. Brunch similar ao jantar de ontem, com os famosos beans da cozinheira Mary (tipo fradinho, sem caldo e algum gari – farinha de mandioca), espinafre e o stew – carne em molho de dendê apimentado. Ficamos cozinhando na casa até as 15:10, quando saímos para explorar as áreas abertas, cruzando parte da Guinean Savanna até a mata ciliar onde vivem as corujas. No começo a coisa estava devagar, mas logo adicionamos novas espécies e observar direito bichos mal vistos anteriormente, com destaque para dois Lophoaetus (um planando, outro pousado), Coracias cyanogaster e um Falco alopex nas áreas abertas, uma Cisticola cantans (sobre uma árvore e com play-back) e um flock de Merops malymbicus pousado na copa na savana, e Tersiphone rufiventer e um par de Pteronetta na mata-galeria.

Esta fica junto à vilinha onde mora Daniel e ele apareceu com uma história curiosa. O rio seria juju, ele havia feito juju para que pudéssemos ver as corujas e queria nos mostrar algo e, obviamente, cobrar um extra para o santo além dos 1.400 naira que ganhou de manhã. Desconversamos e saímos andando. Francis nos encontrou acompanhado por Kayode, o encarregado dos projetos de agrofloresta, e passarinharam conosco. Quando começou a escurecer tivemos sucesso em atrair um Caprimulgus nigriscapularis, bem grande e sem as marcas nas asas tão conspícuas quanto no guia. O bicho nos circulava e pousava nas árvores próximas. Outros dois cantavam nas proximidades.

Voltamos no escuro usando o spotlight e, nas áreas abertas, observamos vários Caprimulgus climacurus na estrada, bem pequenos e com ombros brancos conspícuos, e uma Tyto alba pousada. Jantamos arroz, beans, spinach, salada e fish e beef stew – à luz de velas já que a eletricidade sumiu às 7 da manhã e nunca mais voltou – e partimos para outra das vilas para dar um olá a outro dos chefes locais – um simpático senhor que trabalhou como condutor do metrô de Londres e hoje mora numa big casa (também às escuras) na vila nativa – e ir a um bush bar tomar umas cervas e maltinas. Na volta tivemos que parar no bloqueio do grupo local de vigilantes, a milícia local organizada para coibir o crime (todos com crachá). Sem stress, apesar do chefe da turma fazer questão da cara de mau

De Agenobode para Abuja

13/jul/2008 – Começamos nosso birding na savana um pouco mais tarde, acompanhados por Francis e Kayode. A savana lembra um cerradão, embora as árvores tendam a ser mais altas, com um denso estrato herbáceo de gramíneas que ultrapassam 1m de altura. Há muitas Gmelinas espalhadas, “plntadas” pelo gado dos Fulani, que come as frutas e dispersa as sementes. Gmelina é uma invasora que ocupa boa parte das beiras de estrada em toda a região entre Weppa e Abuja, onde também é usada na arborização. Os impactos ecológicos ? Boa pergunta.

Caminhamos por uma das estradas cortando a savana observando as poucas aves que apareciam. Segundo Phil o habitat é meio devagar, até que apareça um bando misto, quando então é só alegria. Infelizmente nenhum apareceu, mas fomos agraciados com algumas novidades como Erememola canescens e Hyliota flavigaster.

Voltamos ao nosso alojamento, parando antes para fotografar nosso primeiro Alcedo cristata junto a uma poça no interior de um capão de Gmelina. Demos oi aos muitos Agama nos arredores das construções e almoçamos. Tive uma conversa interessante com o manager, Nick, londrino que morou 10 anos na Nova Guine e 4 nas Filipinas e tem uma interessante visão da culpa européia no atual estado de coisas. Eu penso ser mais realista e não conheço uma única civilização que não tenha promovido algum genocídio ou atrocidade similar. Faz parte do pacote.

Zarpamos rumo a Abuja às 11:00. Devido à greve dos distribuidores de combustível o país está um caos, com filas enormes nos postos, mercado negro e alta de preços. Compramos alguns jornais no caminho onde as notícias que me chamaram a atenção, além do fracasso do encontro do G8  em adotar medidas concretas sobre a mudança climática e a crise no Delta (britânicos agora são considerados alvos legítimos lá), eram a proposta de uma “Anti Nudity Law” proposta por uma senadora, nudez entendida como expor a pele na região entre os joelhos e o pescoço (igrejas demais no país…) e o discurso do presidente da Nigerian Population Comission afirmando que “tradition and religion keep the population explosion”. Pois é…

Passamos por Okene, onde vimos um dos poucos Necrosyrtes da viagem, e depois por Lokoja, junto ao rio Niger. A cidade (só vimos a perifa) já foi a capital da Nigéria colonial, aproveitando a navegação pelo Niger, que meandra em um vale bastante largo delimitado por serras ao longo das quais corre a estrada. O Niger tem uma notável planície de inundação com oxbows e praias de areia branca, mas a vegetação é principalmente um emaranhado de cipós, palmeiras e algumas árvores mais altas.

Já próximos a Abuja, com o tempo encoberto e pingando às vezes, observamos alguns Piac-piac e Corvinella corvina nos fios e filas absurdas nos postos.

Abuja, a capital no centro do país que em tempos mais recentes substituiu Lagos, é uma cidade planejada que foi inspirada em Brasília. Ainda está em obras, após 20 anos, com gruas por toda a parte e, como Brasília, congestionamentos enormes. Duas construções se destacam, o que deve ser a maior mesquita do mundo, construída seguindo o formato tradicional, e uma modernosa catedral que também deve estar entre as maiores do mundo.

Nos hospedamos no hotel Valencia e à noite fomos convidados para um barbecue na residência de Ahmed e Grace. Ahmed é um dos parceiros de negócios da Leventis. Ambos formam um casal raro nos dias de hoje, ele muçulmano e ela cristã, e são anfitriões gentis e atenciosos. O destaque no barbecue foi o seri, finas fatias de carne cortada em quadradinhos com um maravilhoso tempero de chili e dois tipos de gengibre. Uma variação – tseri – leva pasta de amendoim (não a coisa doce que usamos). Vinhos Santa Cristina (da Toscana) bem leve, frutado e recomendado, e um Cono Sur chileno alcoólico que caiu mal.

De Abuja para Jos

14/jul/2008 – Preparando para deixar Abuja tivemos que esperar na casa de Ahmed que nosso novo motorista, Asi, arrumasse uma proteção para nossa bagagem. Trocamos nosso Discovery por uma Hilux que obviamente não tinha proteção na caçamba e Asi não pensou nisso quando veio nos apanhar… Babatunde retornou a Weppa, onde deixará o Discovery e voltará a Lagos.

Enquanto esperamos o clima ficou muito encoberto e chuvas esporádicas caíam. No jardim de Ahmed vi apenas Streptopelia senegalensis e um Cinnyris venustus. Os jornais do dia falam da instalação de uma base militar americana na Nigéria, ótima forma de piorar uma situação já ruim, dos pepinos no Delta e do conflito entre os nômades pastoralistas Fulani e agricultores que ocupam suas grazing reserves e fecham as rotas de migração. Passamos o tempo assistindo Oprah com legendas em árabe.

Finalmente partimos às 11:00 rumo a Jos, com muita chuva no caminho. A rota passa por Guinean Savana que se torna cada vez mais intensamente cultivada conforme nos aproximamos da escarpa do platô no centro do país onde Jos (alt. 1250 m) está situada. As áreas cultivadas tendem a ser de pequeno tamanho, mas formando uma grande colcha de retalhos. Nessa área predominam casas de adobe com telhados de zinco associadas a construções redondas com telhado de palha que parecem ser silos e locais de armazenagem. Algumas das vilas são bastante pitorescas, cercadas por paredes vivas de Euphorbia arborescentes.

No caminho para o platô há grandes inselbergs de granito que vão se tornando cada vez mais proeminentes, e formando pequenas serras, conforme chegamos à encosta o platô. Na subida a savana mostra muitas palmeiras de leque (Borassus ?).

Em contraste com o caminho, o alto do platô tem poucas árvores, sendo tomado por cultivos de grãos e batatas, com grandes blocos de granito e inselbergs marcando a paisagem aqui e ali. Paramos no aeroporto para comprar nossas passagens de volta e vimos 2 Necrosyrtes e um grupo de 3 Buphagus africanus pousados nos fios. Nunca havia visto este bicho longe de uma vaca.

Rumamos para o APLORI, vencendo o trânsito pesado de Jos (pop. 2 milhões), que como outras cidades nigerianas parece uma grande vila, sem edifícios altos. Uma igreja local é a Peculiar People’s Church For All Nations. No APLORI encontramos Patrick, um post-doc de Edinburgh que estuda o comportamento de construção de ninhos de Ploceus (tomada de decisões, etc) e Cecília (Cylla) Kim, brit-australian que está passarinhando no lugar após uma conferência sobre educação em Lagos. Chove de forma intermitente e está encoberto, mas mesmo assim fomos para a Rockwater  Fish Farm, hoje abandonada. Os grandes tanques, hoje secos ou transformados em brejos, são um local tradicional para bird-watching em Jos e já estive ali em minha primeira visita à Nigéria, quando encontramos o casal de Tyto capensis que nidifica em meio aos juncos do lugar. Desta vez as corujas não estavam ali, mas observamos uma boa diversidade de aves aquáticas e de borda, incluindo ótimas visões de Myrmecocichla aethiops, Riparia cincta e Oxylophus jacobinus, além de Gallinula angulata, Scopus umbretta, Galerida cristata, Vidua nigeriae e Sporopipes frontalis.

No retorno, já no escuro, tentamos o spotlight com os curiangos, mas só conseguimos alguns Caprimulus climacurus. Phil convidou o grupo para jantar no Hillstation, restaurante chinês-libanês (a dona é libanesa) junto ao Rotary de Jos, que tem uma bela localização e jardins. Dessa vez nossa opção foi pela comida chinesa, o frango com caju e os rolinhos primavera sendo ótimos. No retorno encontramos o APLORI às escuras porquê alguém que deveria ligar o gerador não apareceu, mas como fomos dormir não fez muita diferença.

De Jos para Yankari e de volta

15/jul/2008 – Usamos a manhã passarinhando na Amurum (= hiena) Forest, a pequena (20 ha) reserva do APLORI (09°52’41.8’’N, 08°58’46.4’’E), que basicamente envolve o grande inselberg granítico que domina o lugar. Floresta é um termo muito forte, já que a vegetação é mais savana, árvores maiores (> 20 m) crescendo em algumas ravinas profundas e estreitas que cortam o lugar, formadas por riachos intermitentes. De fato, o planalto de Jos – situado a c. 1200 m e com clima bem mais ameno que o resto do país – tem muitas áreas de voçorocas, algumas resultado da mineração de estanho no período colonial que fez a riqueza (pretérita) do lugar, hoje basicamente agrícola.

O dia começou bem com uma Melocihla mentalis cantando no alto de um arbusto junto ao alojamento.  Rumamos para trilha que contorna o inselberg, incluindo trechos escorregadios (graças à chuva dos ias passados) sobre o afloramento de rocha. A experiência de Phil permitiu identificar as Cisticola da área, incluindo C. dorsti em plumagem reprodutiva cantando nos arbustos e capins altos na savana, e C. aberrans no alto dos inselbergs. Embora sem responder a play-back, um Turdoides reinwardtii deu uma canja por alguns segundos enquanto o resto do grupo se movia na vegetação densa de uma ravina. Como das outras vezes encontramos um grupo de Ptilopachus e uma diversidade de sunbirds, um par de Estrilda caerulescens e um bom grupo de Quelea erythops. Um dos highlights foi o espetacular Myrmecocichla cinnamomeiventris, com pelo menos dois pares observados. De brinde vimos vários hyrax e Tantalus Monkeys, que habitam o inselberg.

Partimos rumo a Bauchi às 11:15, já que Phil teria uma reunião à tarde. No caminho descemos do platô onde está Jos por uma encosta moderada coberta por vegetação arbustiva densa, entrando em uma paisagem similar à vista entre Abuja e Jos, com campos cultivados pontilhados por árvores maiores e os ocasionais inselbergs, mais abundantes perto do platô. Um, à direita da estrada, tinha um recorte especialmente intricado, incluindo um pináculo. Encontramos as primeiras Ciconia abdimii, alguns Piac-piac e um Scopus umbretta no caminho, e muitas vilas de adobe com telhados de palha com unidades individuais compostas por edifícios quadrados e silos redonos unidos por um muro externo fechando um pátio interno.

Bauchi é capital do estado homônimo. O lugar é sede de um emirado hereditário – o palácio do emir tem uma ala antiga em adobe e outra moderna, mantendo um estilo arabish – e o emir compartilha o poder com um governador eleito que tem que obter o apoio do emir. Em comparação com as cidades do sul, a islâmica Bauchi é razoavelmente limpa e organizada, e a população majoritariamente veste trajes típicos.

 

Esperamos no Hotel Protea, onde a reunião ocorreu, e fizemos um lanche, retornando à estrada às 14:00. Passamos por muitas aldeias construídas no estilo local, com cabanas quadradas e silos redondos unidos por um muro externo que cerca um pátio. Ao cruzar o rio Gongola, que estava bem cheio (seca durante parte do ano) paramos para checar os bancos de areia, onde havia um bom grupo de Ardea cinerea, Vanellus spinosus e, especialmente, 11 Egyptian Plovers. Nas árvores próximas Phil encontrou um casal de Oriolus auratus que rendeu algumas fotos.

Continuamos, parando para fotografar os ninhos de Ciconia abdimii nas árvores dentro de uma das aldeias, e às 16:04 entramos no portal do parque, iniciando o percurso de 22 km até a sede do parque em Wikki Springs. Wikki está sendo desenvolvido como um os camps dos parques sul-africanos, com cabanas estilo africano, alojamento para estudantes, centro de visitantes, quadra de tênis, etc, mas muito ainda está em obras e o abastecimento de água e eletricidade é intermitente. APLORI construiu um big alojamento ali, que oficialmente ainda não foi inaugurado mas onde iríamos ficar.

O trajeto do pórtico até Wikki começou muito bem, com o que parecia um bando misto meio disperso de muitos Piac-piacs, um par de Coracias abyssinicus, um Coracias naevius, um Tockus erythrorhynchus, 8 Corvinella, 2 Dicrurus adsimilis, 10 Lamprotornis chloropterus, vários Turdoides plebejus e um Accipter badius. Deste, mais além na estrada um quase capturou um Agama espantado por nosso carro e nós quase atropelamos os dois.

O mais legal foi uma Lissotis melanogaster no meio da estrada, que voou para o acostamento à nossa aproximação e que quase rendeu uma foto. A única bustard da viagem. Logo depois um White-tailed Mongoose também na estrada.

Chegamos a Wikki Springs (09°45’30.8’’N, 10°30’29.6’’E; c. 270 m), sede do parque e onde estão as fontes termais que são a atração principal do sítio e nos instalamos no alojamento do APLORI, sob cuidados do caretaker Muhammad, que é cristão. De cara encontramos vários Warthogs associados a piac-piacs que os usavam para espantar insetos e como montaria. Não demorou muito e também vimos os waterbucks e babuínos que costumam circular na área.

Logo depois fomos circular (de carro) pelas trilhas ao redor, já saudados pelas famosas tse-tsé de Yankari, visitando a cachoeira (agora seca) alimentada por um riacho sazonal, as savanas próximas – um análogo perfeito de um cerrado s.s. alto – e as florestas de palmeiras Borassus e West African Mahogany próximas ao rio que corta ao parque.

As tse-tsé e doenças associadas (fatais ao gado) são a razão dos Fulani e outros pastoralistas não terem invadido partes do país e, consta, dos Yoruba terem mantido seu poder no sul. Áreas com tse-tsés e doença do sono são as únicas grandes reservas de vida selvagem que restaram em partes da África, como o Serengeti e Selous. Tenho muito respeito por esse bicho.

Encontramos um par de Gypohierax fotogênicos, pencas de Merops bulocki, o único Phoeniculus purpuratus da viagem, um trio de Campethera punctuligera, manadas de Petronia dentata e vários Poiocephalus senegalus, entre outros adendos à lista.

Voltamos para o camp no finzão da tarde e reencontrei meu colega Longtong Turshak, com quem visitei São Tomé ano passado e em janeiro. Pesquisador do APLORI, ele agora está em Yankari conduzindo censos de aves e mamíferos e pensando no doutorado.

Enquanto esperávamos o jantar ficar pronto às 20:30 no balcão do bar, que tem uma bela vista para o vale abaixo, apreciamos a lua cheia e as luas de Júpiter com os binóculos, aproveitando a noite clara. Um espetacular macho de Macrodipteryx longipennis voou sobre nós dando um belo show. Estragado pelo grupo de estudantes que resolveu tocar um rap local com volume no talo, usando nosso ouvido como penico. Enquanto isso passava um filme deprê na TV do bar. The Last Lion jamais seria considerado aceitável hoje em dia, com as cenas de bichos de verdade sendo abatidos para valer.

Após o jantar – frango com batatas fritas pingando óleo… – fomos com o spotlight ver o que aparecia na estrada. De cara encontramos um Macrodipteryx vexillarius macho, com plumagem completa, no meio da estrada !!! Phil nunca havia visto esta cena em 35 anos de Nigéria. Não preciso dizer que houve muitos uaus conforme o bicho permitia a saraivada de fotos e quando ele finalmente voou, parecendo um grande “M” branco.

O melhor foi que a cena se repetiu mais três vezes, e ainda vimos uma possível fêmea pousada perto de um macho, e um casal em vôo. A noite foi dos curiangos. Encontramos ainda um Caprimulgus rufigena, 5º registro para a Nigéria deste migrante intertropical, um Caprimulgus climacurus, e um Caprimulgus inornatus, todos fotografados.

De brinde havia vários Galago senegalensis no caminho, dos uais só víamos o reflexo dos olhos. Isso até encontrarmos dois nas árvores da beira da estrada, que resolveram cruzá-la, bem na nossa frente, com apenas um par saltos totalmente absurdos para o tamanho do bicho.

Satisfeitíssimos, voltamos para o alojamento – antes vendo uma família de quatro warthogs saindo da manilha de uma vala de drenagem que margeia a estrada de acesso quando passamos sobre a mesma – e uma merecida noite de repouso, mais agradável graças o ventilador funcionando toda a noite. Em geral cortam a eletricidade após às 00:00, mas como havia autoridades (não nós) no parque…. O único downside foi o banho de cuia no escuro, apesar de haver luz no resto do alojamento. Os banheiros nigerianos têm uma tendência a não terem água e eletricidade.

16/jul/2008 – Acordei no escuro com um par de Glaucidium cantando junto ao alojamento e um Bubo lacteus mais distante. Saímos às 05:30 rumo à precária pista de pouso, onde às 06:00 eu iria realizar meu primeiro vôo em um paraglider motorizado. Momentos de grande emoção !! O piloto chegou pouco depois, fez todas as checagens, me instalei, meio desajeitado com o equipamento fotográfico, ele ligou o motor e partimos à toda… rumo ao estacionamento, quase enganchando o paraglider nas árvores ao lado. Um dos cilinddros do motor falhou e meu super passeio aéreo foi um verdadeiro vôo da galinha. Acho que saí um metro do chão.

Com o cancelamento da aventura aérea fomos explorar as estradas que cortam os arredores de Wikki, especialmente ao longo do rio que é alimentado pelas fontes termais, habitat de crocodilos (vistos na viagem passada) e hipopótamos (só pegadas).

Conseguimos atrair um par de Glaucidium com play-back, mas nenhuma outra ave veio atrás deles, como costuma acontecer por lá (e por aqui). Estes estavam na cachoeira seca, cujo riacho (também seco) tinha muitas pegadas e um poço escavado pelos elefantes para obter água.

De interessante vimos um par de Parus guineensis, outro de Dendropicos goertae, duplas e trios de Psittacula associados a Poiocephalus, um belo Euplectes afer em display no brejo junto ao rio, um macho de Cinnyris pulchellus muito estressado com um play-back de Glaucidium e um macho de Theratopius pousado e muito manso. E a voz dos Gonoleks, estranamente similar a um Thryothorus.

No salt-lick onde atolamos ano passado, na minha primeira visita a Yankari (ao escurecer, sob nuvens de tse-tsés e com leões por perto), além de muitas pegadas de búfalos vimos rapidamente alguns hartbeests. Phil fez um desvio para apanhar a estrada que contorna o lugar e encontramos um grupo de 14 (2 filhotões) Western Hartbeests, ue acabaram cruzando a estrada na nossa frente. Uma nova espécie de antílope para minha lista.

Logo depois vi uma fêmea de Bushbuck deitada junto à estrada, apenas observando o carro. Depois de muitas fotos Chris desceu do carro e o bicho apenas caminhou se afastando. Era tão manso que pensamos estar doente ou ferido.

Após o super brunch das 10:00, com baked beans (ok), omelete (ok) e batatas pingando óleo causadoras de piriri, Phil foi resolver questões políticas sobre a base do APLORI e eu e Chris fomos na fonte, anres observando um par de Eurystomus cantando e se perseguindo nos baobás em frente ao restaurante. Da vez passada nem desci até o lugar, mas agora achamos que valia a pena. Chegando lá o lugar parecia uma mistura de Bonito, com águas limpíssimas e azuis, um verdadeiro aquário, com o Piscinão de Ramos, com uns três ônibus de estudantes da politénica de Bauchi fazendo sua algazarra e mostrando que o povo local tem limitadas habilidades aquáticas. A piscina natural era um verdadeiro cuecário, a maior parte das (poucas) meninas recatamente vestidas e sentadas fora da água. As que estavam na água estavam de bermuda e camiseta.

Decidimos ficar em um ponto mais próximo da nascente propriamente dita, que brota com grande força do sopé de um paredão de arenito marcado com inscrições e pixações de todo mundo que ali esteve (o mesmo vale para os baobás no caminho). Assim evitamos ficar downstream das mijadas da galera. Já chamávamos a atenção por sermos a absoluta minoria étnica e quando Chris revelou-se em um biquíni brasileiro e entrou na água a curiosidade de nossos companheiros de habitat aquático foi exacerbada. Não demorou para sermos cercados por uma galera pedindo para tirar fotos “conosco”. Após satisfazer o desejo de uma primeira leva fomos ver o ponto onde a água brotava, a uns 2 m de profundidade. A temperatura, ao redor de 31°C (está na placa) dá a impressão que andaram usando o lugar como mictório mas depois nos acostumamos com a sensação. Ao voltar a nosso ponto de partida, onde deixamos nossas coisas, primeiro vi um sujeito com o celular disfarçado atrás de uma árvore fazendo fotos da Chris. Depois apareceu um com uma câmera e mais outro. Como animais raros em um parque nacional, incluindo o que deveria ser o menor (e único) biquini no norte da Nigéria, fizemos mais uma sessão de fotos com os estudantes – recatadamente dentro da água – e depois retornamos ao alojamento para empacotar nossas coisas. Deve haver bom estoque de fotos de Chris no Orkut e adjacências.

Deixamos Wikki às 13:13 pegando uma estrada de terra que corre paralela à asfaltada que é o acesso principal. Não demorou muito e vimos 3 Hartbeests no meio da estrada que permitiram minhas primeiras fotos. De quebra, mais um Lybius viellioti, bicho sempre legal de observar. Tomamos o asfalto procurando pelos elefantes que no dia anterior foram vistos em uma das poças formadas nas caixas de empréstimo ao longo da estrada. Nada de elefantes, mas mais um grupo de 12 Hartbeests em uma das caixas, que rendeu mais fotos, e um casal de Oribis em meio à savana densa perto dali. Phil havia acabado de mencionar que sempre encontrava a espécie. Logo de depois vi rapidamente um Canis aureus sobressaindo do capim alto perto da estrada, as grandes orelhas chamando a atenção.

Rumamos rumo a Bauchi sem grandes novidades exceto um par de Serinus mozambicus ainda dentro do parque e um Falco alopex pousado em um galho séc o junto a uma roça perto do pórtico de entrada. Um Melierax e um Coracias naevius pousados na linha que abastece o parque permitiram fotos.

O trajeto entre Yankari e Bauchi (e vice-versa) corta áreas cultivadas, muitas intensamente, onde chama a atenção o fato de terem mantido muitas árvores maiores. Bom número é podado para obter lenha para a cozinha, mas no geral são poupadas, resultando em um ambiente tipo “parque”. Se nossas regiões produtoras de grãos adotassem o mesmo costume seriam menos desérticas.

Fizemos um breve pit-stop em Bauchi para mais uma reunião de Phil e rumamos para Jos, observando as aves urbanas típicas (Corvus albus, Streptopelia senegalensis, Passer griseus, Columba lívia, Bubulcus íbis) até a saída para o APLORI, onde um Buphagus estava pousado no telhado de uma casa e um Tchagra se exibia no alto de uma pilha de blocos.

Nos instalamos no alojamento, reencontrando Patrick engajado m seu projeto de entender a mente dos weavers. Como prometido, Phil nos levou novamente ao restaurante sino-libanês, onde experimentamos um ótimo suya (este com amendoim na receita) antes de iniciarmos um deleite de mezzes, com pelo menos 20 pratos (kibes, esfihas, kaftas, homus, coalhada….) servidos em quantidade que garantiu um belo take-off para Patrick. O downside foi um vinho sul-africano inominável com 14% de álcool, cortesia da casa.

No retorno, satisfeitíssimos, ainda observamos um Bubo cinerascens pousado na cerca junto do alojamento. E no meio da noite ouvimos um Caprimulgus tristigma cantando.

17/jul/2008 – Demorou, mas aconteceu. Chuva torrencial em Jos e o birding possível foi o feito a partir do puxadinho atrás do alojamento do APLORI, que dá para o inselberg. De fato, vimos muitas coisas interessantes circulando por ali, mas nada outstanding. Às 11:00 zarpamos para o aerroporto sob chuva forte. Fiquei um tanto preocupado porquê o vôo saía às 13:00 mas, logicamente, em Lagos chovia mais ainda e houve um atraso de 50 minutos. Chegamos em Lagos às 16:20 e, surpreendentemente, a Third Mainland Bridge tinha trânsito leve e só levou 45 minutos até Ikoyi, onde nos hospedamos. Jantamos um maravilhoso linguado coberto com camarões, tomate, cebola e gengibre, levado ao forno. Regado com o conhecido Nederburg.

De volta a Lagos e indo para São Tomé

18/jul/2008 – Chuva torrencial em Lagos, o que abortou a visita a Lekki, onde a Nigerian Conservation Foundation tem uma reserva de swamp palm forest com uma passarela que permite a visitação. Estive lá em 2007 e foi muito interessante. Devido a razões climáticas de força maior, dia dedicado a responder e-mails e zerar pendências. À noite um agradável jantar com Phil e amigos, Mike da Exxon, Raika da embaixada alemã e a geólogo austráca Eleonora, que trouxe fotos de férias em São Tomé e Príncipe. Nosso destino do dia seguinte.

19/jul/2008 – Acordamos às 06:00 com o objetivo de estar no aeroporto às 08:00. No meio do caminho o filtro de combustível do Discovery novo de Phil entupiu e fomos a passo de tartaruga rumo ao nosso destino. Felizmente era sábado e o trânsito estava leve. Milagrosamente o carro só parou na rampa de acesso do embarque. Não precisávamos ficar tão estressados porque o avião atrasou e ao invés de sair às 10:00 só fizemos o embarque às 11:30 e partimos às 12:15. O stress foi a pentelhação de esperar na fila do check-in, ter um segurança verificando o passaporte e a carta de chamada para São Tomé, depois ter a bagagem revistada duas vezes, aí fazer o check-in e pesar a bagagem. Como estávamos carregando muito equipamento (só minha mala tinha 41 kg) e cada um só podia levar 20 kg, dividimos a bagagem com os Wheeler, família amiga de Phil que calhou de estar no mesmo vôo.

Chegamos às 13:00 (hora de São Tomé) e Alzira Rodrigues, nossa contraparte do Instituto Superior Politécnico, nos aguardava. As próximas cinco semanas serão dedicadas ao nosso curso de treinamento em técnicas de estudo de aves.

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