Introdução – São Tomé

São Tomé e Príncipe (10 a 31 de janeiro de 2008)

por Fábio Olmos (f-olmos@uol.com.br)

Está foi minha segunda a São Tomé e Príncipe (STP). Estive no país entre 10 e 31 de janeiro de 2008 com o objetivo de avaliar a possibilidade de desenvolver projetos de treinamento e capacitação em ornitologia e conservação entre parceiros locais e o A.P. Leventis Ornithological Research Institute (http://www.aplori.org) e BirdLife International (http://www.birdlife.org).

Do ponto de vista da avifauna, STP é considerado um dos países africanos prioritários para a conservação de áreas florestais e a African Partnership da BirdLife tem sido ativa em estabelecer laços e fomentar projetos ali, mas há uma óbvia falta de capacitação local, e é nisso que pretendemos ajudar. Mas isso é outra história.

STP é o menor país africano, formado por duas ilhas principais, São Tomé (857 km2 – 47 x 28 km) e Príncipe (139 km2 – 17 x 8 km), situadas a 255 e 220 km, respectivamente, da costa da África ocidental, além de algumas ilhotas menores, destacando-se as Tinhosas, cerca de 20 km ao sul de Príncipe. As ilhas nunca estiveram ligadas ao continente, sendo resultado de atividade vulcânica da chamada Cameroon Fault, ao longo da qual estão as Mandara Mountains, o Mount Cameroon, a ilha continental de Bioko, STP e Annobón. Bioko, STP e Annobón são as principais ilhas do Golfo da Guiné, cuja avifauna foi analisada por P. Jones & A. Tye. 2006. The Birds of São Tomé & Príncipe, with Annobón. BOU Checklist Series 22. Esta é a melhor obra atual sobre as ilhas. Algumas vozes de aves de ST&P podem ser obtidas em http://xeno-canto.org/africa , incluindo algumas que depositei ali.

 

 

Vista dos arredores do Pico de São Tomé mostrando o interior acidentado e coberto de florestas da ilha. Lembra a Serra do Mar.

 

As ilhas estão localizadas sobre o equador e o clima é bastante quente e úmido. Mesmo na teórica estação chuvosa de julho-agosto pode chover por 24 horas sem parar (como descobri) e partes das ilhas recebem mais de 6.000 mm por ano. A face norte é mais seca (c. 1.000 mm) do que a sul (c. 5.000 mm). O pico mais alto de ST (Pico de São Tomé) atinge 2.024 m e pode ser atingido após umas 8 horas de caminhada (ralada) por uma floresta montana e nebular muito bonita. Príncipe atinge 948 m (Pico) e não tive tempo de escalá-lo.

Como eu disse, as ilhas são vulcânicas, com atividade cessando entre 7 e 3,5 milhões de anos atrás. Com a alta precipitação há muitos cursos d’água, a maioria riachos correntosos que correm sobre leitos de seixos rolados, mas há áreas de manguezal junto à foz de alguns rios, a mais extensa em Malanza, no sul de ST. O maior rio de ST é o Iô Grande, e o de P é o Papagaio.

 

 

A região sul de Príncipe, onde se concentram as florestas menos alteradas (por razões óbvias). Poderiam filmar Lost por lá. O Pico Mesa se destaca.

 

A vegetação das ilhas é predominantemente florestal, a flora mostrando muitas afinidades com a de florestas afromontanas no continente. Por exemplo, ST tem um Podocarpus (endêmico). Uma Symphonia (que no Brasil cresce em áreas brejosas) é comum nas florestas, o que dá uma idéia de quanto chove por ali. Florestas maduras mostram árvores com mais de 30 m. Há c. 165 espécies de orquídeas (umas 65 endêmicas de STP) e nas encostas acima de 550 m (face sul) e 1.000 m (face norte) as árvores são revestidas de musgo. Devo dizer que a floresta nas cristas é muito bonita.

 

Gastropyxis principis, serpente endêmica de Príncipe, fotgrafada em Oquê-Pipi.

 

Autênticas ilhas oceânicas, STP apresenta alto grau de endemismo e listas de espécies podem ser encontradas em http://www.ggcg.st/. Como já disse, a maioria das orquídeas é endêmica; 26 das 314 angiospermas de P são endêmicas, assim como 81 das 601 de ST. Três espécies de pererecas ocorrem em P (uma restrita à ilha – a maior espécie africana, duas também ocorrem em ST), e cinco em ST (3 apenas ali). Uma bizarrice é uma cecília endêmica de ST.

 

 

 

 

 

Euprepes maculilabris (direita) e Hemidactylus greeffi, a última endêmica de São Tomé fotografadas na Praia das Conchas. A primeira é a cara do Euprepes (“Mabuya”) de Fernando de Noronha. Sobre a primeira vale olhar J. Jesus et al. 2005. Phylogeography of Mabuya maculilabris (Reptilia) from São Tomé Island (Gulf of Guinea) inferred from mtDNA sequences. Molecular Phylogenetics and Evolution 37: 503-510.

Um caçador com a pele de uma Civettictis civetta em Bindá (ST) e uma fêmea de Cercopithecus mona.

Príncipe tem oito répteis (dois endêmicos, cinco divididos com ST). Os dois endêmicos são uma serpente subterrânea e um skink ápodo. Há 14 répteis em ST, uma serpente sendo restrita à ilha. Algumas espécies foram introduzidas, como um cágado (Pelusius castaneus) e, acredite se puder, Naja melanoleuca. Parece que os Portugueses a trouxeram para controlar os ratos……

As ilhas também são conhecidas áreas de reprodução para tartarugas marinhas (a verde Chelonia mydas e a “ambulância” Dermochelys coriacea) e há um projeto tipo TAMAR desenvolvido pela ONG Marapa.

Há apenas um mamífero terrestre nativo de ST, o mussaranho Crocidura thomensis, e um em P, C. poensis. Espécies introduzidas incluem gatos, ratos, cães, cabras, carneiros, porcos, vacas (todos com indivíduos ferais), a civeta Civettictis civetta (já presente em 1505), o arminho ibérico Mustela nivalis e o macaco Cercopithecus mona. A troco de quê introduziram alguns destes, eu não sei.

Os mamíferos nativos dominantes são os morcegos. Há quatro espécies em P (dois endêmicos) e nove em ST (idem). Chaerephon thomensis (um Molossidae, o gênero homenageia o filósofo) é o único mamífero com dentição assimétrica. Tanto em Príncipe (especialmente sobre a capital, Santo Antonio, como no oeste de São Tomé (Jalé e Porto Alegre) é possível ver centenas de fruit-bats Eidolum helvum voando para as áreas de alimentação durante o crepúsculo. Nas florestas morcegos insetívoros de cor avermelhada ou castanho (é um dos Hipposideros mas preciso confirmar qual) voam pelo sub-bosque durante todo o dia. Resultado da falta de predadores e competição ?

Cecílias, pererecas, serpentes e lagartos subterrâneos e mussaranhos são colonizadores improváveis de ilhas oceânicas. Uma hipótese é que tenham chegado às ilhas em rafts de vegetação cuspidos por grandes cheias do rio Congo e/ou Niger. Veja G. J. Measey et al. 2006. Freshwater paths across the ocean: molecular phylogeny of the frog Ptychadena newtoni gives insights into amphibian colonization of oceanic islands. J. Biogeography www.blackwellpublishing.com/jbi doi:10.1111/j.1365-2699.2006.01589.x

Mesmo assim é MUITO estranho que não haja roedores, lagartos monitores e tartarugas terrestres. Assim como ralídeos não aquáticos, grandes pombos terrestres e outros bichos que costumam evoluir em ilhas oceânicas. E aqui a história das ilhas pode ser uma explicação.

 

 

 

 

 

As “savanas” de São Tomé, e os baobás a beira-mar na Praia das Conchas.

As ilhas foram descobertas no final de 1470 e início de 1471 pelos portugueses João de Santarém e Pedro Escobar. Eram desabitadas até então. Os primeiros colonos chegaram a partir de 1485, incluindo aí um bom número de crianças judias retiradas de suas famílias, que haviam buscado refúgio em Portugal após o ultimato de “convertam-se ou morram” dos Reis Católicos da Espanha. Os guris não duraram muito, as ilhas sendo conhecidas por serem muito insalubres (malária, doença do sono e febre amarela) e rapidamente se optou pelo uso de escravos africanos, que co-evoluíram com aquelas doenças e morriam em menor número.

O açúcar foi o primeiro produto das ilhas, com canaviais instalados nas áreas mais planas e menos encharcadas ao norte de ambas as ilhas. Em 1529 STP era o principal produtor de açúcar do mundo e em 1578 a produção atingiu seu pico. No entanto, com a competição do Brasil e do Caribe as ilhas perderam importância, pois seu açúcar era de menor qualidade e a partir do século XVII as ilhas se tornaram meros portos de abastecimento de navios negreiros em trânsito. Os antigos canaviais se transformaram nas “savanas” de ST, dominadas por capim colonião, baobás, tamarindos e outras espécies introduzidas. Uma nota interessante é a invasão das ilhas pelos holandeses como prelúdio da ocupação de Pernambuco. Isso explica os bichos africanos no livro de Marcgrav, onde há a primeira menção de Treron sanctithomae, datando de 1648. Em 1599 os holandeses deixaram as ilhas depois de perder 1200 homens para doenças o longo de duas semanas, mas conseguiram se estabelecer entre 1641 e 1648.

Com a introdução do café em 1800 e o cacau em 1824 as ilhas viveram uma renascença econômica. Ambos os produtos vieram do Brasil, o cacau sendo trazido por José Ferreira Gomes, marquês, baiano (há muitas coisas baianas nas ilhas), mulato, dono de navios negreiros. Foi estabelecida uma estrutura de grandes plantações estilo cabruca muito similares ao que foi utilizado no sul da Bahia. O resultado foi que a ilha acabou dividida entre grandes plantações (“roças”), a maior parte das florestas abaixo de 1.000 m virou cabruca ou café sombreado e muitas árvores de sombreamento foram introduzidas (incluindo Erythrina e Cecropia). De 1908 a 1919, São Tomé e Príncipe foi o maior produtor de cacau do mundo.

A história das ilhas já rendeu livros (recomendo G. Seibert Camaradas, Clientes e Compadres, que também saiu em inglês). Resumindo, com o fim da ditadura Salazar todas as colônias portuguesas na África se tornaram independentes e resolveram ser comunistas. STP seguiu o padrão, mas escapou da guerra civil regulamentar. Os Portugueses caíram fora, as roças viraram empresas estatais sorteadas entre apadrinhados políticos e a economia foi para o saco. Imagine a região de Ilhéus e Itabuna transformada em um ilha comunista administrada pelos alunos da Marilena Chauí ou a UNE de 1964. As ilhas só voltaram à democracia em 1990. O jornal da semana diz que o orçamento anual do governo é de US$ 50 milhões. 90% do PIB vêm de ajuda externa.

 

 

 

 

 

A influência portuguesa na arquitetura da capital de São Tomé.

O resultado é que as roças acabaram abandonadas e suas ruínas pontilham as ilhas. As cabrucas estão virando florestas e estas devem ocupar uma maior área hoje do quem 1975. Para isso colaborou a aversão local ao trabalho nas roças, considerado coisa de escravo. Durante minha estadia notei um aumento nos preços dos alimentos e a imprensa falava em crise agrícola, uma das razões sendo o abandono de 50% das terras distribuídas durante a reforma agrária local e, segundo autoridades entrevistadas, a pouca disposição de muitos para o trabalho agrícola e o alto custo de insumos.

O êxodo português também significa uma população majoritariamente negra. Eu sei o que é se destacar na multidão. Os brancos são turistas, funcionários do PNUD ou hotéis, ou os libaneses que dominam o comércio (como no resto da África Ocidental). Era comum o pessoal me chamar de “blanco”. Como STP é uma das poucas nações reconhecendo Taiwan na ONU, há muitos investimentos taiwaneses, e os próprios, por lá.

 

 

 

 

 

Os remanescentes das antigas roças, transformadas em cortiços rurais após a “reforma agrária” (Bombaim, à direita) ou abandonadas para a floresta (Bindá) após 1975.

A investigação científica da biota das ilhas só começou para valer após 1841, e sumarizada no livro de Jone & Tye que mencionei. Como em outras colônias, os Portugueses não ligaram para a História Natural de STP por mais de 400 anos após sua descoberta, o que abre larga margem para que muita coisa tenha sido extinta neste intervalo.

Para os visitantes. O lugar é o penico do mundo, mas há uma estação seca (menos chuvosa…) entre junho e agosto (“gravana”) e duas semanas sem chuva entre janeiro e fevereiro (“gravaninha”). Em janeiro os bichos das savanas estavam em reprodução e as aves das florestas cantando bem mais do que em julho. Em ST, especificamente no Jardim Botânico de bom Sucesso, pode ser comprado o Guide des Oiseaux de São Tomé et Príncipe, de Christy & Clarke, por 20 euros. Foi produzido pelos franceses da ECOFAC e os nativos logicamente não conseguem ler. Como STP pode ser acessado do Gabon, muitos combinam as viagens, então o guia a levar é o de Ryan  Sinclair para a África subsaariana, o melhor para o continente. O de Borrow & Demey para a West África também serve, mas a arte não é tão boa.

O acesso às ilhas se dá por vôos partindo de Luanda (FUJA DA TAAG. Além de pontualidade lhes ser um conceito alienígena, seus aviões costumam cair), Libreville, Sal, Lagos e Lisboa. Os dois últimos acontecem uma vez por semana, os outros cerca de três. Você precisa de uma “carta de chamada” de alguém do país (pode ser a agência de turismo) para conseguir o visto quando desembarca. Eu não tinha uma quando cheguei em julho e foi um porre. O visto custa 50 euros. Aliás, tudo aqui é caro. Um hotel meia boca custa 55 euros (single), a diária de um carro 60 e uma refeição no restaurante 15 a 20 euros. A moeda local (dôbra) estava cotada a US$ 100 = 1.400.000 em janeiro.

Os restaurantes parecem achar que turistas só comem bife, frango ou peixe com batata frita. Um pena, pois há pratos locais muito bons. Gostei muito do calulu (um caldo grosso com uma penca de folhas, com versões frutos do mar, peixe ou frango), feijão da terra (feijoada de frutos do mar com dendê), cachupa (difícil de explicar), o polvo no molho e os peixes gelhados, servidos com fruta-pão e banana. O andala (marlim defumado é muito bom. Na cidade de São Tomé o restaurante da Pensão Turismo Adelaide (onde mora Lênin) foi a melhor opção para pratos locais e o restaurante Filomar para peixes (recomendo o cherne). Em São João dos Angolares é obrigatório um almoço na Roça São João, onde a sede da plantação virou uma bela pousada.

Traga dinheiro vivo (euros), pois não há ATMs e praticamente ninguém aceita cartão de crédito. Tudo é bem caro, mas se você quiser conforto, hospede-se no Marlim Beach (São Tomé) e no Bom Bom Resort (Príncipe). O último é um bom lugar para uma lua-de-mel.

Ah sim, snorkeling nas ilhas é muito bom e da próxima vez quero fazer mergulho autônomo. No inverno austral há jubartes migrando na área (há excursões saindo de Bom Bom) e  pesca esportiva é considerada muito boa.

Cerca de 1/3 de STP foi designado como Parque Natural Obô dentro do projeto ECOFAC, promovido pelo governo francês. Mas fora a infra do Jardim Botânico, não há estruturas ou manejo e não ficou muito. Mas pelo menos o governo é dono das terras graças aos anos comunistas. Para passarinhar o ideal é contratar um guia da Associação Monte Pico (montepico@yahoo.com.br), mas organize o transporte e hospedagens via uma agência de turismo. Recomendo a Navetur (navetur@cstome.net http://www.navetur-equatur.st). E vá com boa dose de paciência, pois a noção de tempo por lá não é a daqui.

Finalmente, vamos às aves. Há 33 espécies de aves terrestres nidificando em Príncipe, e algo mais que 50 em São Tomé. Dependendo do arranjo taxonômico, há 25 a 28 espécies de aves não marinhas endêmicas das ilhas. As Galápagos têm 22. Fora isso há várias subespécies endêmicas que podem merecer status específico quando propriamente avaliadas. Por exemplo, Onychognathus, Aplopelia e Halcyon das ilhas são absurdamente diferentes das formas continentais.

Muitas espécies ficaram décadas sem registro. Os “Big 4” das ilhas são Bostrychia bocagei, registrada em 1928, só redescoberta em 1991. Lanius newtoni, sumido de 1928 a 1990, Amaurocichla bocagei de 1928 a 1988 e Neospiza (hoje Serinus) concolor de 1890 a 1991. Todos parecem restritos a florestas mais maduras, que nunca foram roças.

Os outros endêmicos são, na maioria, resilientes e podem ser encontrados nas roças ou nas florestas que se regeneram a partir destas. Uma característica das florestas é que todas as aves que você ali pertencerão um táxon (espécie ou subespécie) endêmico de STP.

Uma característica interessante são os gêneros endêmicos de afinidade incerta. Amaurocichla parece e se comporta como um Lochmias ou Sclerurus, e foi cogitado como um paleotáxon. A genética indica uma afinidade com as Motacilla. Horizorhinus, cuja voz é o som de Príncipe, parece estar relacionado a algumas Sylvia das montanhas da África.

No fim deste report acrescentei uma lista das espécies e fotos de aves representativas, feitas na viagem de julho.

 

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