Diário – Trip report- Argentina – F.Olmos

por Fábio Olmos (f-olmos@uol.com.br)

Indo ao que interessa:

20/dez: Saímos pontualmente de Cumbica no vôo da Varig das 07:45. Lei de Murphy aplicada: eu estava armado com meu iPod carregado e dois livros de Terry Pratchett (parece que finalmente o descobriram no Brasil) para suportar os atrasos. Chegamos a Buenos Aires depois de 3,5 horas com tempo suficiente para ir de Ezeiza para o Aeroparque, almoçar, comprar um mapa rodoviário e apanhar o vôo das 15:50 para Trelew.

Chegando, fomos saudados na pista do aeroporto por uma família de Mimus patagonicus e apanhamos nosso carro (um Corsa) depois de resgatar nossa bagagem. Minutos depois estávamos no museu paleontológico da cidade, uma de suas principais atrações com um ótimo acervo de dinossauros e mamíferos do Eoceno-Plioceno (incluindo cetáceos) colecionados na região. Há também um Paraphysornis do Alvarenga, que aparece nos cartazes de “Visite Trelew” espalhados pelos aeroportos onde passamos.

Dali fomos nos instalar em nosso hotel e, com o longo dia, olhar a Laguna Cacique Chiquicahano, um parque municipal logo atrás da rodoviária. Dezenas de Podiceps occipitalis, Anas georgica, Himantopus melanurus, Fulica spp., e números menores de Rollandia rolland, Oxyura vittata, Netta peposaca, Heteronetta, etc. Muitas Progne elegans voando sobre a lagoa e a cidade, além de muitos pardais.

21/dez: Rumo a Punta Tombo, a 120 km de Trelew. O lugar é conhecido como uma das maiores colônias de Spheniscus magellanicus no continente que, embora em declínio, tem algo como 200 mil casais. O famoso vento patagônico estava a toda, afetando a estabilidade do carro e dificultando visualizar aves no trajeto. O percurso corta a estepe, que é muito monótona exceto onde o relevo é movimentado. Pencas de Milvago chimango no caminho. A parte final da viagem é em estrada de rípio (brita e pó de pedra), que são bem melhores que a maior parte das BRs. Ao entrar na área da reserva vemos as primeiras Pterocnemia pennata, incluindo dois machos com um séqüito de filhotes, e guanacos. Pagamos os 20 pesos cada um na cancela do guarda-fauna e nos dirigimos à pinguinera, com cuidado por conta os pingüins atravessando a estrada.

Obviamente o lugar estava cheio de pingüins, e esta parece ter sido uma boa temporada, pois havia duplas de filhotes com 2/3 do tamanho dos adultos na entrada de quase todo buraco. Patrulhando a colônia, aproveitando o forte vento, havia um par de Stercorarius antarcticus, mas não chegaram muito perto. Chimangos e Cathartes aura (bem diferentes dos nossos) também patrulhavam a área. Também vimos algumas simpáticas Microcavia australis, mini preás endêmicas da região.

Conforme o tempo passava foram chegando as vans e ônibus de excursões, que ficavam cerca de uma hora no lugar e depois partiam. Dava pena do pessoal, preso naquele esquema.

Na costeira vimos alguns Lophonetta comendo algas nas poças de maré, além de um macho do esquisito e vocal Tachyeres leucocephalus (descrito apenas em 1981). Agora tenho fotos de todas as espécies do gênero.

Na volta, com o vento menos indecente, paramos em um trecho da estepe perto de um tanque de água, o que rendeu os primeiros Phrygillus fruticeti, Sturnella loyca, Sicalis lebruni, Asthenes pyrrholuca, Anaraietes parulus, etc. E os comuníssimos Zonotrichia capensis, os 1/3 God Sparrows (são onipresentes).

Na volta passamos sobre o rio Chubut na perifa de Trelew, parando em um dos brejos marginais com juncos, o que rendeu os únicos Phleocryptes melanops e Fulica rufifrons da viagem.

22/dez: Saímos de Trelew às 6:40 para Puerto Madryn, onde tomamos café da manhã em na boa lanchonete Iguana, perto da praia, onde aproveitamos para ver as gaivotas. Dali seguimos a Ruta 42 (ripio), que vai pelo litoral até a rodovia de acesso a Puerto Pirámides, passando por La Doradilla, uma reserva natural municipal que abrange várias praias. Durante o trajeto, novamnte atormentados pelo vento, paramos várias vezes para ver aves de estepe (Sicalis luteola, Phrygilus carbonarius, Asthenes pyrrholeuca, etc) e belos lagartos Liolaemus darwini.

Em uma valeta larga e algo funda na beira da estrada que acumulava água extravasada de um duto havia um grupo de uns 10 Anas georgica e um A. platalea bem manso. Nas praias, flanqueadas por falésias, vimos muitas gaivotas, incluindo a única C. cirrocephalus da viagem, e várias Thalasseus sandvicensis pescando na arrebentação. Também um ninho de Progne elegans escavado na parede de uma gruta numa falésia que resolveu dive-bombing us.

Saindo do rípio para o asfalto, progredimos mais rápido para Puerto Pirâmides, parando na Isla de los Pájaros, reserva provincial que abrange uma ilha quase ligada ao continente onde centenas de Larus dominicanus nidificam, além de números menores de outras espécies. O vento atrapalhou muito e vimos pouco.

Península Valdés é uma área protegida (reserva faunística integral, c/ 360 mil ha) onde boa parte da propriedade é privada, mas apenas alguns usos são permitidos, incluindo a criação de ovelhas. Algo meio APA, meio refúgio de vida silvestre. Pontos especiais, como Punta Norte, Isla de los Pájaros, Calleta Valdez e Punta existem “reservas naturais turísticas” com seus guarda-fauna, bases de apoio, centro de visitantes, etc. Mas estas podem ser privatizadas e o acesso imitado.

Logo na entrada da Península pagamos o ingresso de entrada, recebemos nossos mapas e fomos ao centro de visitantes (com arquitetura niemeyer), onde os nomes dos moluscos em exposição estavam todos trocados.

Após nos instalarmos na pousada em Pirâmides fomos até a lobería próxima, onde havia apenas alguns machos adultos esperando a chegada das fêmeas, o que acontece principalmente em janeiro. Uma Chionis estava lá no seu ofício de comer as fezes dos leões. Algumas pessoas que conheço deverão reencarnar como este bicho. Uma colônia de Larus dominicanus na falésia ao lado não estava ali em 1994.

Uma coisa interessante é que a formação geológica que corresponde à maior parte da península e do leste de Chubut é de sedimentos marinhos depositados entre 10 e 14 milhões de anos atrás. E absurdamente cheios de fósseis de moluscos, além de ocasionais peixes, caranguejos, cetáceos, pinípedes e preguiças gigantes que entravam no mar para comer algas. Exemplares disto tudo podem ser vistos no museu de Trelew, mas ver uma formação fossilífera com mais de 200 m de altura (as falésias da península) impressiona.

De volta a Pirâmides, faltou luz na cidade e água quente na pousada. Resolvemos compensar com um belo jantar de frutos do mar.

23/dez: Após o café da manhã (croissants, pão com manteiga, geléia e café com leite) saímos para Punta Norte, vendo logo de saída muitos guanacos, as interessantes maras Dolichotis patagona, muitas Eudromia elegans (que adoram uma beira de estrada) e algumas Pterocnemia penatta. Além de pencas de Mimus patagonicus, Diuca diuca, Sicalis luteola, Mimus triurus e, lógico, Z. capensis.

Em Punta Norte fomos recebidos por um tatu Chaetophractus villosus, que se meteu embaixo do carro enquanto eu tentava fotografá-lo, e duas raposas (Dusicyon griseus), mais ariscas. O lugar é famoso como a colônia de leões-marinhos onde um grupo de orcas se alimenta. Mas isto acontece a partir de fevereiro-março. Agora havia principalmente leões-marinhos machos esperando a chegada das fêmeas, e jovens focas-elefante. No entanto, vimos dois filhotes de leão, um deles com apenas horas de vida.

Punta Norte é interessante para passarinhar porquê as aves são muito mansas, além de haver uma poça de água doce (alimentada por um reservatório) que atrai bom número de aves da estepe. Curiosamente não vimos uma única Eudromia elegans ali, mas havia muitas em 1994. Os Phrygilus fruticeti pousam a seus pés pedindo comida, coisa que os tatus também fazem.

Enquanto olhávamos os pinípedes na praia notei algo na água que mostrou ser uma baleia-franca com seu filhote, nadando rumo sul. Com a luneta foi possível ver bem as calosidades na cabeça.

A reserva tem um bom centro de visitantes, que informa sobre as orcas (todas reconhecidas inividualmente) e conta a história o lugar, onde mais de 10 mil leões-marinhos chegaram a ser mortos em um único ano pelo seu couro e óleo. Devem ter justificado isso com o discurso do “emprego e renda” e “desenvolvimento sustentável”.

De Punta Norte fomos margeando o mar em direção sul até Calleta Valdés, 80 km adiante, passando pelo famoso lodge da Estância La Ernestina. No caminho muitos guanacos e emas, inclusive na praia. Calleta é uma ria separada do mar aberto por uma península estreita. Em sua cabeceira há pequenas marismas e, conforme dirigimos para sua barra, o terreno se eleva, formando praias de cascalho, barrancos altos e depois falésias. Onde há barrancos existe uma grande pinguinera e é possível ver as aves de perto em um dos vários paradouros.

A estepe, antes muito arbustiva, aqui é mais graminosa e mais favorável às ovelhas que, depois do turismo, sustentam a economia local, além das muitas lebres introduzidas e das Pterocnemia. As lebres são muito comuns e várias são vistas atropeladas nas estradas, para alegria de carcarás, chimangos e urubus.

Junto à barra da Calleta há o Parador Tia Elvira. Tem um restaurante, trilhas que dão acesso à praia (e os focas-elefante) e uma loja de lembranças. Algumas Eudromia muito mansas, e lebres mais ariscas, passeavam no jardim.

Chegamos na maré baixa, caminhamos pela trilha até o naufrágio “Lolita”.

Voltamos para a pousada cansados e sujos, parando para ver algumas Geositta cunicularia no caminho. Quase em Pirâmides notei um ninho sobre um poste onde descobri três filhotões de Buteo polyosoma, quase na idade de voar. A mãe não demorou para aparecer e permitir boas fotos. A volta é longa (é uma viagem de uns 70 km entre Pirâmides e P. Norte), a poeira é muita e não é possível dirigir rápido por conta do rípio e dos bichos. E comemoramos com mais frutos o mar e um bom vinho.

24/dez: Tomamos café da manhã e fomos direto para Calleta Valdés, registrando uma bela Neoxolmis rufiventris, várias maras, guanacos e um grupo de Sicalis lebruni no caminho. Chegamos na maré cheia, vendo as orcas mais de perto. A guarda-fauna local, muito prestativa, nos disse que tinham visto orcas em Punta Norte pouco antes e fomos correndo para lá. Quando chegamos as orcas já tinham ido embora, mas valeu pelas três Neoxolmis rubetra no caminho e os 20 Macronectes giganteus na Punta. Voltamos para Caleta Valdés.

Almoçamos no restaurante do Parador Tia Elvira, aprovando o cordero e experimentando a tarta negra patagónica, que tem gosto de whisky. Deve ser por isso que dizem que dura até 10 anos ! Após o almoço os arredores nos renderam passeriformes diversos e, satisfeitos, resolvemos continuar rumo ao sul até Punta Delgada, no canto sudeste da Península.

De Calleta Valdés fomos até Punta Delgada, parando no caminho para tentar fotografar um par de Buteo melanoleucus que voava o longo das falésias mas que não deu moleza. Em Punta Cantor paramos para ver o que havia nas falésis (bem altas ali) e achamos uma colônia de Phalacrocorax brasilianus e P. magellanicus. Além de um par de Anthus furcatus bastante mansos. Enquanto estava entretido com estes, os Buteo, que havíamos deixado para trás, nos alcançaram e proporcionaram bons visuais e fotos.

Punta Delgada (que é uma reserva natural), onde caminhei junto a focas-elefante em 1994, foi privatizada, hoje tem um hotel e está fechada para não hóspedes. Snif.

Dali voltamos a Pirâmides por estepes mais graminosas ao longo da parte sul da Península, passando pela Salina Grande (um lago salgado seco). No caminho tivemos bons visuais de Thinocorus rumicivorus, de um macho de Pterocnemia com dezenas de filhotes de várias idades, um belo Circus cinereus, vários Charadrius falklandicus e Calidris melanotus comendo entre os carneiros nos pastos de halófitas que drenam na salina e mais uma Neoxolmis rufiventris.

Chegamos em Pirâmides às 20:00 e, para alegrar o espírito natalino, descobrimos que o chuveiro apenas pingava e os restaurantes só ofereciam menus navideños custando 120-160 pesos. Ho, ho, ho.

25/dez: Fomos à recepção da pousada para o café da manhã às 08:10, mas graças ao menu navideño estava tudo fechado. Tinha um hóspede trancado por dentro e vários circulando fora. Deixamos a porta do quarto aberta e com a chave, e zarpamos para Puerto Madryn. Passamos novamente pela Isla de los Pajaros e, sem vento, conseguimos ver as aves – incluindo flamingos na praia – e, de brinde, uma baleia franca com seu filhote, nadando ao léu bem próximos da praia.

Informados pela guarda-fauna de Calleta, fomos para Puerto Madryn pela Ruta 2 para procurar os Cyanoliseus. Chegamos no porto de Madryn sem ver nada. Resolvi voltar e, perto de um ferro velho e lixão, ali estava um dos loros pousado nos fios elétricos. Parei o carro, e logo o bando, que comia no chão, voou para os fios, dando um show.

Em Puerto Madryn rodamos até achar uma lanchonete ajeitada à beira mar (só às 11:00) para tomar nosso café da manhã. Comemos sanduíches, café com leite e um café vienense que parecia água suja. Argh. Nutridos, seguimos rumo sul bordejando a costa em direção a Punta Loma, outra reserva provincial, parando nas praias on the way. Em uma havia meia baleia-franca transformada em um enorme pedaço de charque e ossos, além de gaivotas, trinta-réis e Charadrius falklandicus.

Perto de Madryn existe outra reserva faunística, Punta Loma que protege uma loberia ao sopé de uma falésia onde nidificam centenas de Phalacrocorax magellanicus, que literalmente cagam na cabeça dos mamíferos. De brinde mais um Chionis e um Leucophaeus. Os biguás estavam em trânsito contínuo trazendo algas para forrar os ninhos.

Um dos guardas me disse que em Punta León, mais ao sul, havia colônias maiores, incluindo Phalacrocorax atriceps, e resolvemos ir até lá, já que tínhamos tempo. Fomos rípio afora procurando a indicação para a reserva de Punta León, que existia no mapa. Nicas, e acabamos parando em Punta Ninfas, um promontório de quase 200 m de altura de onde se vê a praia cheia de focas-elefante lá embaixo. Um trio de Falco peregrinus brincava de perseguir os muitos Larus que passavam.

Como havia uma trilha resolvemos descer até lá, passando por terreno instável e sujeito a desabamentos, em alguns pontos recomendável apenas para cabras. Mas coberto de fósseis de moluscos que rendem boa diversão. As muitas cavidades expostas por desmoronamentos me fizeram pensar se ali não existiu uma colônia de Cyanoliseus, que cava longas galerias na rocha macia, o que já foi mostrado em muitos documentários.

Lá embaixo, na praia de seixos, chegamos muito próximos às focas sem incomodá-las, enquanto uma família local recolhia mariscos. Vimos também o único Thalasseus maximus da viagem. Subimos apreciando os fósseis e vencendo o forte vento que surgiu do nada no topo da falésia, e tentamos novamente achar o acesso a Punta León.

Seguindo o mapa rodoviário chegamos à Estância El Pedral, vendo um belo Oreopholus no caminho. Um senhor muito gentil explicou o caminho, que na realidade seguia um labirinto de estradas de serviço (com muitos Lessonia rufa) ao longo das cercas. Foi um verdadeiro rally de fim de tarde com o carro saltando pela estepe até que perdemos o caminho e resolvemos voltar depois de 20 km e nos tocarmos que se lgo acontecesse estaríamos lascados.

De volta à estrada principal seguimos rumo a Trelew, passando por Rawson, marcante pelo enorme lixão infestado por Larus dominicanus na entrada da cidade, com km2 de estepe cobertas por plásticos levados pelos ventos eternos. Medonho. Ao longo da estrada para Trelew há canais de irrigação que alimentam vários brejos, com muitos patos & cia, rendendo algumas paradas.

Chegamos em Trelew mais de 20:00. Deixamos o carro e a bagagem no hotel Galícia, tomamos um ótimo banho e fomos jantar no La Eloísa. Cordeiro e vinho Tempranillo, com sobremesa de licuados na ótima heladeria local.

26/dez: Com uma leve ressaca rumamos para o aeroporto para apanhar o vôo das 08:15 para Calafate. O vôo é rápido, 1:30. Chegamos em El Calafate e pegamos um shuttle até a pousada: Eu havia combinado com a Budget de nos entregar um carro na pousada, mas tomei um cano. Mas o pessoal da pousada, muito prestativo e atencioso, conseguiu outro por um preço menor de uma locadora local, que fomos buscar no centro da cidade (que é pequenina), ali perto.

Calafate lembra uma Monte Verde no caminho de se tornar uma Campos do Jordão, o que a detonaria. Há bairros totalmente novos que não existiam quando estive lá em 1994 e hotéis pululam pelos locais menos prováveis. Há muitas lojas que vendem de artesanato a equipamentos para trekking e muitas opções gastronômicas. Situada às margens do Lago Argentino, resolveram até mesmo construir um “calçadão” o longo da orla, só que o nível da água flutua muito e, quando estivemos lá, havia uma larga área de grama muito baixa entre a calçada e a água onde pastavam muitos cavalos e Chloephaga picta.

Chama a atenção em Calafate o grande número de cães soltos, invariavelmente do porte de um pastor alemão para cima. Falta carrocinha no lugar. Os muitos jardins têm rosas enormes de cores que não são vistas por aqui.

Com nosso valente Fiat Uno zarpamos em direção ao Glaciar Perito Moreno. A estrada segue ao longo do Lago Argentino, cruzando a estepe, o relevo ficando mais ondulado até o entroncamento para Punta Bandera, onde começam as montanhas. Ali surgem os primeiros bosques de Notophagus, as árvores de Gondwana, que vão ficando maiores até se transformarem em florestas no interior do parque.  Até esta hora o dia estava lindo, ensolarado.

Do centro da cidade até a bilheteria do parque são cerca de 60 km. A entrada do parque custa 30 pesos. Ao longo do caminho, com o lago de um lado e a encosta florestada do outro, começamos a registrar algumas aves novas, como as primeiras de muitas Elaenia albiceps e um par de Enicognathus ferrugineus. Fomos direto para o mirador do Glaciar, que é realmente belíssimo. O azul luminoso do gelo é irreproduzível, devendo ser visto para ser compreendido. Ali é possível observar algumas aves interessantes,como Xolmis pyrope, mais Anaraietes, Turdus falklandicus e os hiperativos Aphrastura spinicauda. Havia muitos notros Embothryum coccineum em flor, e procurei bastante Phytotoma rara, que dizem ser associadas a esta planta, mas não a encontrei.

Chama a atenção a riqueza de texturas e cores do tapete de arbustos e ervas que cresce nas bordas da floresta, indo do vermelho dos notros e dos frutos dos chauras, ao amarelo das orquídeas Gavillea e dos topa-topa.

Queríamos almoçar lá, mas quando chegamos no restaurante estava fechado fazia quinze minutos… Grrr. O jeito foi ir ao snack bar encarar um sanduíche de jamon serrano (ótimo) com queijo e chocolate quente com um Milvago chimango e um Phrigilus patagonicus (e pencas de Zonotrichia) vindo apanhar as migalhas nos nossos pés. Começou a chover e desistimos de caminhar, voltando de carro e encontrando os únicos Curaeus curaeus da viagem. Em frente ao hotel Los Notros (que fica dentro do parque) notamos um Enicognathus ferrugineus. pousado sobre uma pedra. Paramos e descobrimos eu era um trio que descia ao chão para apanhar as infrutescências de dentes-de-leão (uma exótica muito comum) e comer as sementes imaturas.

Seguimos de carro e resolvemos apanhar o caminho de rípio que vai ao lago Roca, um satélite do grande Lago Argentino. O caminho cruza uma estepe menos seca, com muitas lagoas temporárias cheias de macrófitas, e gradualmente as árvores surgem conforme vamos na direção oeste. As lagoas tinham grande número de patos (especialmente A. georgica) e, para minha surpresa, vimos alguns Haematopus leucopodus. O que comem por aqui não imagino.

Em direção ao Roca, com pastos mais úmidos que substituíram a antiga floresta, vimos Theristicus melanops, mais Chloephapaga picta e um pequeno grupo de C. poliocephala. Enquanto a pecuária parece ter favorecido C. picta, que pasta como uma ovelha, C. poliocephala é bem mais raro.

Também vimos os primeiros Colaptes pitius e muitos carcarás. Voltando para Calafate cruzamos com dois zorrilhos Conepatus humboldti, um par de Agriornis livida e outros bichos de estepe, e, em um riacho, um par de Sterna hirundinacea pescando na corredeira, o que foi uma surpresa. Voltamos a Calafate às 21:00 e comemorei o bom dia com mais cordero.

27/dez: De manhã voltamos ao parque Los Glaciares para aproveitar o belo sol da manhã, vendo um grupo de Phrygilus grayi e alguns condores no caminho, além de cisnes-de-pescoço-preto e flamingos no Lago Argentino. Revimos as aves do dia anterior, desta vez sem a chuva nos atrapalhando, apreciamos o Glaciar com uma bela luz e retornamos a Calafate.

Depois do almoço dirigimos ao longo da famosa Ruta 40 para ver o que havia acontecido com a famosa Laguna de los Escarchados, localidade-tipo de Podiceps gallardoi. Eu havia lido na internet que ela estava praticamente seca por falta de nevascas “machazas” e os bichos só poderiam ser encontrados na região do Lago Strobel, mais ao norte e de acesso complicado. Mas já que estávamos na área fiquei curioso em ver o lugar.

Dirigindo para o sudeste de Calafate cruzamos as antigas morenas que delimitavam um Lago Argentino (ou Glaciar Argentino ?) bem maior que o atual antes de subir para o planalto onde está a lagoa. O vento começou a soprar forte, atrapalhando as observações. A estepe ali é dominada por gramíneas e lembra a Serra da Canastra. Vimos muitos guanacos, que não eram especialmente apavorados. Seria interessante reintroduzir estes bichos na região do Espinhaço. Aposto que se dariam bem e fariam a alegria das onças. Também vimos algumas Pterocnemia.

A lagoa está tão reduzida que quase não a percebemos da estrada. Havia alguns flamingos, cisnes, coscorobas (um par voou passando junto de um Buteo melanoleucus que planava e os ignorou), C. picta e patos menores. Vimos um macho de Buteo polyosoma planando em busca de presas e vários Anthus correndera (não tão marcados nas costas como os daqui) e o que parecia um A. hellmayri.

Curiosidade satisfeita voltamos a Calafate, passando pelo depósito de lixo (nunca perca a chance de visitar o lixão !!) entupido de gaivotas e chimangos, e dali rumamos para a Laguna Nimes. Esta na realidade é formada por duas lagoas satélites do Lago Argentino, separada do mesmo por um estreito cordão de dunas e uma praia de cascalho. Parte da água eventualmente drena para o lago, que é muito oligotrófico e se beneficia da adubação feita pela laguna.

Isto porque Nimes recebe as águas servidas de parte de Calafate, que passam por alguns pequenos juncais antes de chegar às lagoas maiores. Estas tem cor de suco de couve, de tanto fitoplâncton. Logicamente, com tanta comida, a lagoa está cheia de aves aquáticas, as que filtram a água ou comem as macroalgas, como Anas platalea, A. georgica, A. sibilatrix, Lophonetta, ambos Oxyura, Fulica armillata, etc. Também há mais Chloephaga picta, Theristicus,  a lagoa mais distante tem flamingos e os dois cisnes. Um trio de Circus cinereus deu um belo show mas não consegui fotos, mas isto foi compensado pelo show de um Cistothorus platensis (nada  ver com o bicho de nosso cerrado) e alguns Hymenops. Senti falta dos Rollandia e Podiceps occipitals que vi em 1994. A água deveria estar muito turva para eles.

A lagoa é uma reserva municipal com entrada paga. O pessoal transformou um local que basicamente faz o tratamento primário de seu esgoto em uma atração turística graças às concentrações de aves que se juntam ali. E o fato é que sempre há grupos de turistas por lá fazendo um bird-watching básico. Há um guia fotográfico das aves do lugar à venda na sede da reserva.

Resolvi explorar as margens o Lago Argentino, ali ao lado, onde vi muitos maçaricos (especialmente Calidris melanotus) nas margens lodosas, além de muitos patos e gaivotas. Andar no cascalho da praia era como andar em um monte de brita, mas procurando nas margens mais lodosas fui logo recompensado com um par de Pluvianellus socialis. Muito mansas, permitiram boa aproximação e exibiram o típico comportamento de “sapatear” girando no mesmo local para desalojar invertebrados do lodo.

Feliz por encontrar uma das principais desideratas da viagem, voltei ao carro e ainda fui brindado com a rápida visão de um Asthenes anthoides nos arbustos próximos. Com o dia ornitológico completo, voltamos ao centro da cidade para devolver o carro à locadora e comprar roupas de campo e jantar, fechando com um maravilhoso milk-shake de maça com canela do Aquarela. Dias longos são muito convenientes.

28/dez: Dia dedicado ao cruzeiro de barco pelos glaciares do Lago Argentino. Um ônibus nos apanhou na pousada e rumou para Punta Bandera, com alguns condores no caminho. Há alguns brejos com juncos em Punta Bandera com muitas aves aquáticas (cisnes, coscorobas, flamingos, etc) que valem serem olhados com calma. Como em Calafate, havia vários brasileiros na excursão.

O barco tem duas cabines estilo Jumbo (3 fileiras de poltronas, com 3, 5 e 3 assentos cada), cafeteria e sistema de excelente qualidade para impressão de fotos digitais na hora. Um fotógrafo tira fotos do pessoal, exibidas no circuito interno de TV. Partindo de Punta Bandera o barco segue pelo Canal de los Tempanos (icebergs em castellano), passando por muitos até a Baía Onelli, o lago sendo flanqueado por encostas íngremes cavadas pelos antigos glaciares que mostram as camadas das rochas sedimentares.

Uma das principais atividades o cruzeiro é a observação de icebergs, parando para que sejam feitas fotos os exemplares especialmente bonitos. O azul de alguns é inacreditável.

Na Baía Onelli desembarcamos e caminhamos em meio a uma bela floresta de Notophagus até o lago homônimo, cheio de icebergs que se desprendem dos glaciares Onelli, Bolado e Agassiz. A área, embora no parque nacional, pertence a uma estância que cria gado bovino que vaga pela floresta e tem um restaurante para servir o pessoal dos cruzeiros. Optamos por fazer um lanche no lago ao invés da correria do almoço. Não vimos muitas aves, exceto as comuns Elaenia albiceps e um Buteo melanoleucus sendo atormentado por um Falco sparverius.

O cruzeiro continua pelo braço Upsala até o belíssimo glaciar deste nome, parando para que vejamos alguns icebergs especiais. Um problema é que as plataformas de observação na proa e popa não têm espaço para todos e há ferrenha competição por espaço entre os fotógrafos. O tempo instável, alternando nublado e chuva, e os borrifos da proa, também atrapalharam.

O Upsala é um dos maiores glaciares do parque e, como todos exceto o Perito Moreno, está em franca retração. Dali seguimos pelo Brazo Spegazzini (que foi um botânico italiano) passando pelo Glaciar Seco, outro em evidente retração, até o Glaciar Spegazzini, especial por mostrar o rio de gelo vindo do alto da montanha em toda a sua majestade.

Na vigem de volta o comandante parou junto a um paredão onde um casal de condores estava pousado, a fêmea mais abaixo e oferecendo excelente visão. Continuamos até Punta Bandera, de onde o ônibus nos levou de volta a Calafate, onde jantamos fartamente em um tenedor libre com ótimo asador.

29/dez: Acordamos às 06:30, tomamos café da manhã, apanhamos um táxi e nos levou até a rodoviária onde fomos apanhar o ônibus para El Chaltén. Houve uma confusão porque não se sabia que ônibus ia para Chalten e que ônibus ia para Perito Moreno (Ruta 40). Os dois ônibus foram em comboio até a estância La Leona, onde existe um famoso bosque petrificado, para um lanche e piss stop. La Leona tem este nome porquê uma puma atacou Francisco P. Moreno naquele lugar.  O caminho acompanha, e atravessa, parte do curso do rio Santa Cruz, que nasce no Lago Argentino, e do rio La Leona (que liga o Argentino e o Lago Viedma), antes de seguir pela margem norte do último.

Pouco depois paramos para um momento ora pois, já que um ônibus seguia rumo norte para Perito Moreno e o outro oeste para Calafate,  os “organizadores” não haviam dividido os passageiros de acordo. Quae uma hora para dividir a turma de passageiros, muitos que não entendiam patavina de castellano.

No caminho poucas aves notáveis na paisagem árida, exceto um Thinocorus orbignyanus na beira da estrada. Conforme nos deslocamos para oeste, nos aproximando das montanhas, vemos o grande Glaciar Viedma, que alimenta o lago homônimo, e os picos dos cerros Torre, FitzRoy e associados. O visual é definitivamente impressionante, e o belo dia ensolarado ajuda mais ainda.

Por fim chegamos a El Chaltén (430 m). O ônibus pára primeiro no centro de visitantes do parque onde são dadas instruções sobre comportamento nas trilhas e um mapa. O ponto final do ônibus é no outro extremo da vila e pgamos um táxi até o hostal Condor de Los Andes, onde nos instalamos.

Chaltén está mais para uma Monte Verde reduzida, mas com notável diversidade de restaurantes e hospedagem. Em um vale flanqueado por penhascos e no encontro do rio de Las Vueltas e do rio Fitzroy o lugar é bem simpático.

Com uma bela tarde ensolarada sem uma nuvem no céu tomamos a trilha para Laguna Torre, no sopé do Cerro Torre (3.120 m). Esta é uma das mais populares trilhas do parque, seguindo por um mosaico de áreas abertas e florestas até a laguna, delimitada por uma morena glacial deixada pelo glaciar em retração. Ali há uma área de acampamento onde fiquei em 1994 e descobri da pior maneira que o chão congelava à noite e que deveria ter levado um bed-roll.

A trilha começa na vila e logo de saída vi um Buteo polyosoma planando sobre uma das colinas que delimitam o vale. O bicho foi para trás das rochas e quando pensei que havia voltado vindo do lado oposto vi que era outra ave, um Phalcoboenus albogularis, que deu um pequeno show antes de voar para trás das rochas. Quando isso aconteceu surgiu um par de Buteo melanoleucus com um indefectível Falco sparverius os atormentando.

Animados com este começo rapinante começamos a subir pela trilha, encontrando zilhões de Troglodytes aedon e Elaenia albiceps. Logo vimos um par de condores e nos animamos ainda mais. Onde as árvores começaram a ficar mais densas ouvi o chamado do que se revelou um par de Campephilus magellanicus muito mansos e felizes em posar para fotos. Adiante ouvi o canto obsessivo de um Scytalopus magellanicus e marquei o local para voltar depois.

A trilha é bem marcada, com placas nos pontos onde pode haver confusão. Uma subida mais íngreme tem uma corda de segurança. O terreno é ondulado, com subidas e descidas enquanto a trilha segue o vale do rio FitzRoy, ora se aproximando deste (que faz um belo canyon perto de Chaltén), ora se afastando. O tempo todo tínhamos o visual do Cerro Torre e das geleiras próximas.

Chegamos até o ponto onde a floresta se tornava mais alta e densa e, por conta do horário, começamos a voltar. Encontramos mais Aphrastura (genial como ficam de ponta cabeça enquanto procuram comida sob os ramos), outro par de Campephilus magellanicus, desta vez comendo no chão, e uma família de Colaptes pitius muito colaborativos. Enquanto os observava surgiu o único Pygarrhichas albogularis da viagem, se comportando como um arapaçu.

Havia bom número de pessoas na trilha, de grupos organizados aos solitários, boa parte sendo obviamente estrangeiros, com muitos italianos. Alguns obviamente iam acampar, outros iam fazer um bate-volta. Chamou a atenção a proporção considerável de trekkeiros da geração over 60 que alegremente passavam com seus mochilões. Talvez 20% dos turistas pertenciam a este grupo. Aliás, não cruzamos com nenhum brasileiro nesta trilha.

Voltando, notei uma lagoa na periferia da vila com um mergulhão suspeito. Fui investigar e encontrei um par de Podiceps occipitalis e um de Anas specularis (os únicos da viagem), além de uma família de Chloephaga picta. Satisfeitos, paramos na excelente pizzeria Patagonicus para comemorar.

30/dez: Tomamos café e seguimos a trilha até Laguna Torre, cerca de 10 km além de Chaltén. Tempo encoberto, com chuva leve e neve ocasional. O tipo de clima que gosto. No caminho muitos Zonotrichia, Elaenia albiceps e Troglodytres que são as aves mais abundantes. Um pouco de pishing em uma área mais arborizada atraiu um grupo de uns 10 Carduelis barbata, ½ dúzia de Elaenias, dois pares de Troglodytes, Zonotrichia sortidos e duas lebres.

No ponto do Scytalopus, onde arbustos densos cresciam junto a um riacho, fiz play-back e o sujeito rapidamente se mostrou caminhando sobre os troncos e rochas, escalando as árvores como um lagarto e esvoaçando te 10 m. Foi  primeira vez que vi um Scytalopus voando e certamente um os mais fáceis de ver, chegando muito próximo e pousando em locais abertos. Como a chuva aumentava resolvi tentar fotos mais tarde.

Continuamos a caminhada, cruzando pontos de floresta com árvores mais antigas onde encontramos mais grupos de Aphrastura. Estas florestas ao formadas quase apenas de lengas Notophagus pumilio, e quase todas as árvores mostram ocos e ramos mortos. O sub-bosque é aberto, com muito poucas árvores novas (o recrutamento de Notophagus depende de deslizamentos de terra, etc) e o chão é acarpetado por violetas amarelas Viola maculata, e ocasionais orquídeas. O cenário faz com que você espere encontrar um duende a qualquer momento. O que me causaria problemas, pois estou sem licença de coleta.

Saindo do bloco de floresta e descendo uma antiga e enorme morena que corta o vale de lado a lado entramos em um terreno mais plano densamente coberto por arbustos de ñire (onde havia mais Scytalopus) e que começa a se aproximar mais do rio, que corre feroz entre matacões. Ali encontrei as primeiras Muscisaxicola albilora, muito tranqüilas com relação à nossa presença. De fato, todos os bichos o parque parecem muito mansos, refletindo a ausência de fêdêpês com espingardas e estilingues. E apesar de não cruzarmos com um único guarda ou fiscal. As trilhas também são bastante limpas, o que além da manutenção reflete a atitude dos usuários em relação ao patrimônio público, oposta à que adotamos aqui.

Chegamos à grande morena que delimita a Laguna Torre, passando pela área de camping De Agostini, onde fiquei em 1994 e havia um número razoável de pessoas. A morena é um grande dique de fragmentos e blocos de rocha empurrados pela geleira que desce da montanha e foi deixado para trás quando esta retraiu. A água que vem da geleira é represada pela morena, formando a Laguna Torre, onde nasce o rio FitzRoy.

Vários Cinclodes fuscus, e mais Muscisaxicola albilora procuravam insetos nas margens da lagoa, onde havia muitas algas filamentosas (o mesmo no FitzRoy). No ponto onde o Fitz sai da lagoa encontrei um Cinclodes patagonicus solitário, também procurando comida junto à água.

Em 1994 eu encontrei um Merganetta armata no trecho inicial do FitzRoy e fui atrás do bicho. Para minha surpresa encontrei um casal quase que imediatamente. O macho procurava alimento na água enquanto a fêmea descansava sobre uma rocha protegendo dois filhotes inda com penugem. A forma como este bicho se mantém estacionário ou nada contra a forte correnteza é sobrenatural. Muito tranqüilos, permitiram uma boa aproximação.

Na volta fizemos um desvio para as lagunas Madre e Hija, encontrando um grupo de Xolmis pyrope no caminho, mas com o cansaço e o terreno ascendente desanimamos. Voltamos à trilha principal e parei para fotografar o Scytalopus, o que não é fácil, pois o bicho não pára quieto. Logo depois encontramos mais dois condores antes de continuar de volta a Chaltén.

31/dez: Para fechar o ano resolvemos caminhar os 12 km até a Laguna de los Tres, alimentada por uma geleira que desce do espetacular Cerro Fitz Roy  (3.505 m). O início da trilha, logo após um aclive que começa no camping que fica na perifa de Chaltén, é muito tranqüilo, quase um passeio na floresta. Um oco em uma grande lenga tinha plumas ao seu redor que poderiam ter vindo de alguma coruja (Strix rufipes ?) hospedada em seu interior. Vimos mais dos mesmos bichos, lém de um grupo de Enicognathus em um par de condores, um dos quais um juvenil. A trilha tem visuais belíssimos do vale do Rio de Las Vueltas, além do conjunto de picos do FitzRoy e irmãos.

Tínhamos andado alguns quilômetros quando começou a chover. Ao deixar a floresta chegamos ao fundo do vale, onde há densa cobertura de ñires, onde havia mais Anaraietes. Os apelos lembram os de um Hemitriccus.  Depois deste trecho a trilha cruza áreas abertas com várias pequenas lagoas, onde achamos mais Cinclodes patagonicus e um grupo familiar de Chloephaga poliocephala pastando os arbustos.

A trilha estava bem mais movimentada, com grupos de 10-20 pessoas obviamente em excursões tipo day-trip, indo para a Laguna, incluindo um par de cariocas. Logo cruzamos a área de acampamento Poincenot onde também fiquei em 1994. Lembro de um culpeo Dusicyon culpaeus do tamanho de um coiote que rondava as barracas. Hoje há uma latrina e é proibido fazer fogueiras, o que não acontecia antes. De Poincenot a trilha atravessa o rio e vai para o campamento Rio Blanco, for climbers only. Ali começa o forte aclive até a Laguna, onde são vencidos 750 m.

Este é o trecho mais detonado da trilha e pelo menos 150 pessoas estavam resfolegando morro acima e abaixo, piorando inda mais a erosão. Os avisos de “mantenha-se na trilha demarcada” eram basicamente ignorados. A trilha sobre bem acima da linha das árvores, chegando à área subalpina de rochas expostas, turfeiras e cushion plants. No caminho cruzamos com alguns Phrygilus patagonicus, mas a chuva e, principalmente, o tráfego na trilha atrapalharam a degustação do lugar. É mais um caso de um lugar onde o excesso de lotação acaba com um lugar agradável.

Quando chegamos na laguna não se via nada, pois a neblina havia encoberto tudo. Esperamos um pouco e esta levantou, mostrando a laguna, que tem uma água azul incrível. A laguna foi obviamente maior, e havia uma grande área encharcada que foi parte da mesma. Ali havia abundante crescimento de algas azuis gelatinosas tipo Nostoc entre as rochas, prova da resiliência do grupo. A volta foi menos agradável. O primeiro trecho foi bem melhor do que na subida, mas depois a chuva aumentou, as roupas “impermeáveis” começaram a falhar e parecia que não chegaríamos nunca de volta à cidade. Argh.

Chegamos um tanto molhados à cidade, mas nos recompomos e fomos comemorar o reveillon no Pangea, com boa pizza e pisco sour (diferente do peruano), e depois no hostal, com direito a brasileiros fazendo a zona de praxe e ao único carro de bombeiros da vila ligando sua sirene.

01/jan: Apanhamos o ônibus Chalten-Calafate às 06:30hs, chegando em Calafate às 11:00. Viagem sem incidentes, exceto um grupo de farofeiros israelenses que encheram o corredor com sacolas de supermercado, obrigando os demais a pular para chegar a seus assentos. Nice… Deixamos as bagagens na agência que faz o translado para o aeroporto e fomos passear na cidade e comer.

Dali caminhamos até a Laguna Nimes, que já tinha um bom número de visitantes e, infelizmente, três cães padrão pastor alemão zoneando a área. Cães foram selecionados para se comportarem como filhotes de lobos, sendo assim geneticamente projetados para serem retardados mentais, inclusive com cérebros menores que seus ancestrais. Isto é um problema quando um destes infelizes aparece em um lugar cheio de bichos, já que ficam perseguindo o eu se move sem trégua. Na lagoa um dos cães se jogou na água para tentar capturar os flamingos, que surpreendentemente apenas voavam alguns metros, deixando a anta canina se cansar indo de um lado para outro.

O grande objetivo da visita a Nimes foi conseguir algumas fotos de Circus cinereus, e o trio residente foi bastante cooperativo comigo e outros fotógrafos. Uma fêmea que atacava um dos cães ofereceu boas oportunidades. Foi fantástico ver como estes rapinantes pousavam nos arbustos sem ligar muito para as pessoas. De quebra revi os patídeos (incluindo centenas de Chloephaga picta) e a família local de chimangos, com os pais voando a 1 m sobre minha cabeça tentando me afastar os filhotões que estavam pousados m um dos bancos colocados para descanso dos visitantes.

Às 16:30 apanhamos o shuttle para o aeroporto e às 21:30 chegamos a Buenos Aires. Como a maioria dos taxistas estava curtindo a ressaca do Ano-Novo, havia uma fila de mais de 1 ½ h para sair do aeroporto. No fim chegamos ao hostal depois das 23:00hs, em local bastante pitoresco, mbora um pouco fora da ferveção.

2-3/jan: Dias de calor, em contraste com Chaltén. Gastamos nosso tempo fazendo compras em Buenos Aires, especialmente ao longo da Calle La Florida e afluentes. Durante as manhãs não resisti e fui até a Costanera Sur, um dos meus locais favoritos na bela BA (adoro esta cidade), mas, para decepção geral, as lagoas que em anos anteriores regurgitavam de aves aquáticas estavam quase secas, expondo uma lama negra malcheirosa e, junto ao calçadão que limita a reserva, muitas garrafas de cerveza. Uma desgraça. Vi alguns bichos comuns (incluindo uma Aramides ypecaha) e muitos pernilongos, e considerei melhor ir garimpar as livrarias. Uma faixa na entrada da reserva convocava  população a lutar em defesa da mesma, mas não descobri o que havia acontecido para  água estar tão baixa.

No fim da tarde do dia 3/jan zarpamos via TAM de volta a São Paulo, sem maiores incidentes.

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